por Oscar D'Ambrosio


 

 


Airton das Neves

 

            Pintura narrativa

 

            Michelangelo afirmava que “a perfeição é feita de pequenos detalhes – não é apenas um detalhe”. A máxima vale para a pintura de Airton das Neves. Com aproximadamente dois anos de carreira profissional, este pintor autodidata paulistano, aos 40 anos, desenvolveu um raro amor pela perfeição.

Gradativamente, as suas telas apontam na direção de uma técnica que se assemelha a de pintoras como Ana Maria Dias e Lucia Boccini, no sentido de trabalhar com pinceladas cuidadosas. O resultado pode ser verificado em paisagens elaboradas de cenários urbanos, praias ou portos. Em todos se destaca a existência de numerosas narrativas paralelas. Cada imagem individualizada integra-se ao todo com fluência.

            Essas narrativas paralelas têm como matéria-prima o cotidiano. Há desde alusões ao nome da esposa, Elisabete, a cenas variadas, como crianças brincando, idosos descansando no banco da praça, carroças transportando alimentos e mulheres grávidas, uma provável alusão ao fato de ter sido pai recentemente.

O esmero técnico pode ser observado na forma como são pintadas as telhas que recobrem os casarios e na forma como apresenta as árvores. Outro detalhe presente em muitas telas são os tijolos à vista de muitas casas. Talvez sejam justamente eles que nos forneçam a base para apreciar melhor o trabalho de Airton das Neves.

Os tijolos são a base da construção de uma casa. São o alicerce das paredes sobre as quais será erguido um teto. Analogamente, a pintura do artista paulista se baseia justamente em suas memórias visuais passadas na praia, em sítios ou na periferia da cidade. Dessa matéria-prima, atinge composições imaginárias em que, muitas vezes, eles surgem em paredes mal pintadas ou com rachaduras, típicas do entorno das metrópoles.

O artista trabalha esmeradamente cada composição. Às vezes, são mais de dez dias para dar conta dos numerosos detalhes e do aperfeiçoamento do senso de composição, que inclui desde a decisão de onde colocar a linha do horizonte até a situação de cada personagem no conjunto da tela.

            Airton das Neves tem como grande arma o seu esforço de conceber cada detalhe no conjunto de seu trabalho. À medida que aperfeiçoa um elemento, dá um passo decisivo para atingir resultados significativos. As suas cenas de regiões urbanas periféricas, nesse sentido, já revelam maturidade, principalmente pela humanidade e frescor que brota de cada tela.

Para o pintor paulista, portanto, o amor ao detalhe não é uma mera procura de perfeição técnica, mas um recurso estilístico que gera uma poética sincera, cristalizada com talento com imagens plenas de pequenas narrativas que compõem um todo de grande expressividade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

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 Subúrbio 


acrílica sobre tela 50 x 70 cm sem data

Airton das Neves

 

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