Aguilar
Um
homem e suas bandeiras
O que há de realismo e o que existe de fantasia na obra
do artista Aguilar? Esta pergunta sempre me acompanhou ao
conhecer as suas variadas dimensões, seja ao trabalhar com
suportes mais tradicionais, como a tela, ou ao realizar
performances em que as mais diversas artes se mesclam em autênticas
óperas marcadas de energia visceral.
A exposição
Brasil de Aguilar, no Centro Cultural FIESP, de 2 de junho a 17
de julho de 2005, começou a responder essa indagação. Há lá
um concreto que serve como ponto de partida: as bandeiras dos
Estados brasileiros, o próprio pendão do País e palavras
retiradas do Hino Nacional.
No entanto, o
movimento que Aguilar alcança a partir desses objetos
impressiona pela capacidade de mobilização interna que gera no
espectador. Ele desmonta o Brasil que cada um tem na cabeça e
propõe um novo, absolutamente pessoal. Surge um mapa fantástico
renovado com cores interiores.
Instaura-se
assim um realismo fantástico. Embora o conjunto das bandeiras
inusitadas e das palavras do hino plasticamente retrabalhadas
tenham uma dimensão questionada, há um referencial concreto em
xeque que se chama Brasil e, além disso, existe uma dimensão
ainda mais importante: Aguilar nos obriga a esquecer o Brasil
tal qual o conhecemos.
No entanto,
isso ocorre com naturalidade, como nos textos do escritor
mineiro Murilo Rubião. O fantástico entra com tamanha lógica
artística que logo o assumimos como natural e real. Após ver
algumas bandeiras de Aguilar, a dúvida é inevitável: por que
as bandeiras não podem ser alegres como ele as apresenta, sem a
formalidade oriunda de normas e brasões que as congelam no
tempo e, muitas vezes as deixam sem alma.
As alusões
visuais a Jackson Pollock e a sua action
painting são evidentes, mas
funcionam como recordações de uma período
artístico em que pecar era não arriscar e limitar-se era o
caminho para o inferno. O perigo de conter as emoções e
reprimir-se parece ser o maior alerta de Aguilar ao longo de seu
trabalho e, principalmente, em suas bandeiras.
Nas pinturas
de grandes dimensões, como as Bandeira dos Visionários,
observa-se todo o talento de Aguilar em pensar alto. Suas
imagens gritam pela nossa visibilidade. São
um chamamento energético por alguns momentos de atenção plástica.
A que tem como tema Getúlio Vargas constitui uma Via Láctea em
meio às cores nacionais. Não há indiferença que resista.
Alguns críticos
chamam o trabalho de José Roberto Aguilar de expressionismo
abstrato. Embora qualquer discussão sobre nomenclaturas em um
artista tão amplo como ele seja reducionista, vale pensar que,
de fato, sua obra tem um poder expressivo muito pujante. O
abstrato não está na imagem que pode ser encontrada no
suporte, mas na capacidade de conseguir condensar e explodir emoções.
Nascido em
1941, em São Paulo, SP, ele nos oferece uma capacidade de
indagação permanente que não é pouco, numa sociedade cada
vez mais globalizada e conformada com horas por dia de sonolenta
televisão e pouca efervescência cultural. Nesse sentido, cada
bandeira é um soco no estômago de poder revolucionário, não
daquele feito com uma arma na mão, mas daquela que trabalha com
idéias na mente e no fígado.
As bandeiras,
assim como o Circo Antropofágico e a Banda Performática, são
aspectos de um mesmo Aguilar: o homem- arte. Seja em vídeo seja
em pintura, seu desejo é mostrar que o inconformismo e a
rebeldia só valem a pena se puderem ser praticados de alguma
forma.
É simples
dizer que se é um inconformado. Mais fácil ainda é
transformar esse sentimento em destruição. O desafio é
construir com um sentimento de não-estar no mundo a cada passo.
Substantivos e adjetivos coloridos do hino, bandeiras do Estados
recriadas e visionárias criações sobre momentos
fundamentais da História nacional, como o descobrimento, os
anos Getúlio ou o período de exceção da ditadura, mostram o
que é possível fazer por um novo Brasil.
Se uma
bandeira identifica uma nação ou um partido, sendo,
tradicionalmente um pedaço de pano com uma ou mais cores, às
vezes com legendas ou símbolos, o que Aguilar fez no Centro
Cultural FIESP foi propor um conceito libertador. Enquanto o símbolo,
oprime, porque se cristaliza, suas
bandeiras, que seguem impulsos e regas realisticamente
fantásticas por serem absolutamente individuais, abrem
possibilidades de interpretação.
Descortina-se
um novo mundo em cada Estado. Ao sair da exposição, todos se
tornam visionários. Pode ser um nova
cidade, país ou um universo – pouco importa. Foi criada,
pelas bandeiras semeadas em cada mente, um grão de incômodo.
Tomara que outros e novos A(a)guilares
as façam frutificar.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis
de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).