por Oscar D'Ambrosio


 

 


Aguilar

 

Um homem e suas bandeiras

 

            O que há de realismo e o que existe de fantasia na obra do artista Aguilar? Esta pergunta sempre me acompanhou ao conhecer as suas variadas dimensões, seja ao trabalhar com suportes mais tradicionais, como a tela, ou ao realizar performances em que as mais diversas artes se mesclam em autênticas óperas marcadas de energia visceral.

            A exposição Brasil de Aguilar, no Centro Cultural FIESP, de 2 de junho a 17 de julho de 2005, começou a responder essa indagação. Há lá um concreto que serve como ponto de partida: as bandeiras dos Estados brasileiros, o próprio pendão do País e palavras retiradas do Hino Nacional.

            No entanto, o movimento que Aguilar alcança a partir desses objetos impressiona pela capacidade de mobilização interna que gera no espectador. Ele desmonta o Brasil que cada um tem na cabeça e propõe um novo, absolutamente pessoal. Surge um mapa fantástico renovado com cores interiores.

            Instaura-se assim um realismo fantástico. Embora o conjunto das bandeiras inusitadas e das palavras do hino plasticamente retrabalhadas tenham uma dimensão questionada, há um referencial concreto em xeque que se chama Brasil e, além disso, existe uma dimensão ainda mais importante: Aguilar nos obriga a esquecer o Brasil tal qual o conhecemos.

            No entanto, isso ocorre com naturalidade, como nos textos do escritor mineiro Murilo Rubião. O fantástico entra com tamanha lógica artística que logo o assumimos como natural e real. Após ver algumas bandeiras de Aguilar, a dúvida é inevitável: por que as bandeiras não podem ser alegres como ele as apresenta, sem a formalidade oriunda de normas e brasões que as congelam no tempo e, muitas vezes as deixam sem alma.

            As alusões visuais a Jackson Pollock e a sua action painting são evidentes, mas funcionam como recordações de uma período artístico em que pecar era não arriscar e limitar-se era o caminho para o inferno. O perigo de conter as emoções e reprimir-se parece ser o maior alerta de Aguilar ao longo de seu trabalho e, principalmente, em suas bandeiras.

            Nas pinturas de grandes dimensões, como as Bandeira dos Visionários, observa-se todo o talento de Aguilar em pensar alto. Suas imagens gritam pela nossa visibilidade. São um chamamento energético por alguns momentos de atenção plástica. A que tem como tema Getúlio Vargas constitui uma Via Láctea em meio às cores nacionais. Não há indiferença que resista.

            Alguns críticos chamam o trabalho de José Roberto Aguilar de expressionismo abstrato. Embora qualquer discussão sobre nomenclaturas em um artista tão amplo como ele seja reducionista, vale pensar que, de fato, sua obra tem um poder expressivo muito pujante. O abstrato não está na imagem que pode ser encontrada no suporte, mas na capacidade de conseguir condensar e explodir emoções.

            Nascido em 1941, em São Paulo, SP, ele nos oferece uma capacidade de indagação permanente que não é pouco, numa sociedade cada vez mais globalizada e conformada com horas por dia de sonolenta televisão e pouca efervescência cultural. Nesse sentido, cada bandeira é um soco no estômago de poder revolucionário, não daquele feito com uma arma na mão, mas daquela que trabalha com idéias na mente e no fígado.

            As bandeiras, assim como o Circo Antropofágico e a Banda Performática, são aspectos de um mesmo Aguilar: o homem- arte. Seja em vídeo seja em pintura, seu desejo é mostrar que o inconformismo e a rebeldia só valem a pena se puderem ser praticados de alguma forma.

            É simples dizer que se é um inconformado. Mais fácil ainda é transformar esse sentimento em destruição. O desafio é construir com um sentimento de não-estar no mundo a cada passo. Substantivos e adjetivos coloridos do hino, bandeiras do Estados recriadas e visionárias criações sobre momentos fundamentais da História nacional, como o descobrimento, os anos Getúlio ou o período de exceção da ditadura, mostram o que é possível fazer por um novo Brasil.

            Se uma bandeira identifica uma nação ou um partido, sendo, tradicionalmente um pedaço de pano com uma ou mais cores, às vezes com legendas ou símbolos, o que Aguilar fez no Centro Cultural FIESP foi propor um conceito libertador. Enquanto o símbolo, oprime, porque se cristaliza, suas bandeiras, que seguem impulsos e regas realisticamente fantásticas por serem absolutamente individuais, abrem possibilidades de interpretação.

            Descortina-se um novo mundo em cada Estado. Ao sair da exposição, todos se tornam visionários. Pode ser um nova cidade, país ou um universo – pouco importa. Foi criada, pelas bandeiras semeadas em cada mente, um grão de incômodo. Tomara que outros e novos A(a)guilares as façam frutificar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 


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Bandeira dos Visionários 
acrílica sobre tela 2 m x 4,80 m 2003


Aguilar


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