A
expressão do
desenho de PT Barreto
Poucos
livros
são
tão
fascinantes na
história da
literatura
brasileira
como Os
sertões, de Euclides da
Cunha. Publicado
em 1901, tem
como
tema a
campanha de Canudos,
ocorrida em
1897, no
nordeste
da
Bahia. A
obra é dividida
em
três
partes: a
primeira, A terra, descreve o
cenário
em
que se desenrolará a
ação; a
segunda, O homem,
conta a
gênese dos jagunços e de
seu
líder, o
carismático Antônio
Conselheiro; a
terceira, A luta, foca as
quatro
expedições
contra o
arraial de revoltosos.
Dar a
esse
universo uma
expressão
plástica foi o
desafio de Paulo de
Tarso
Oliva Barreto (PT Barreto)
em
sua
tese de
doutoramento Os
sertões: uma
interpretação
gráfica, defendida,
sob
orientação de Evandro Carlos
Jardim, na ECA-USP,
em
dezembro de 2008.
É
por
meio do
desenho, realizado
com
nanquim,
feito
com
pena de
bambu,
sobre
folhas de
papel
tamanho A2,
que surge
um
processo no
qual o
artista
passa rapidamente do
pensamento à
ação. O
uso do
branco do
papel
como
fundo
expressivo nas
cenas
mais
fortes,
como as das
batalhas
pela
conquista do
arraial gera
grande
impacto.
Números
alusivos aos
combates,
letras
com
trechos de
textos de Euclides e a
própria
assinatura de PT Barreto interagem
como
elementos
gráficos, havendo variações
saudáveis
entre
momentos
em
que a
imagem aparece
com
mais
elementos e
outros
em
que o
olhar
descansa
perante a profusão de
acontecimentos
visuais
que o
livro evoca.
Realizados
sem
esboço, os
desenhos funcionam
em várias
dimensões: existem os
planos
gerais,
ideais
para
cenas
mais amplas
em
que a
paisagem se faz
presente, os
detalhes de
rostos de
personagens,
como
padres,
militares,
jagunços e
cangaceiros, vêem à
tona, e
detalhes de
objetos
como
facões e
armas de
fogo.
O
uso de
aguadas gera
efeitos de
extrema
delicadeza,
como a do
cangaceiro
que surge
em
tonalidades
fortes,
enquanto
seu
cavalo é
quase
um
fantasma a
dominar o
espaço da
caatinga,
palco de
um
conflito
que
não foi,
principalmente
em
seu
término,
um
combate,
mas
um
massacre
onde a
degola
tinha
um
papel
essencial.
A
habilidade do
artista na
forma de
mostrar os
animais merece
especial
destaque. Reses e
cavalos aparecem
em diversas
posições,
sempre
com uma potencia cristalizada no
gesto e na
força.
Esse
universo do
movimento é
extremamente adequado ao
gesto do
artista e a
sua
proposta de
transmitir
pelo
desenho o
poder de
um
texto
como Os
sertões,
onde a
ação e o
clima
psicológico e narrativo
são
fundamentais.
A
presença, na
mesma
imagem, de
elementos
grandes e
pequenos contribui
decisivamente
para
gerar uma
tensão
entre as
figuras,
assim
como
composições
em
que o
elemento
gráfico se
torna
muito
importante
para o
desenvolvimento de
um
pensamento
sobre as
questões
essenciais da
obra
tomada
como
assunto.
A
visão
que PT Barreto tem do
texto de Euclides da
Cunha oferece
não
só uma
interpretação da
sangrenta
intervenção
militar na
vida do
arraial
sertanejo de
Canudos,
mas
um
desenhar
sobre o
interior do Brasil,
longe do
litoral e das
capitais.
Com
vigor e
coragem,
torna
seu
desenho
um mergulho no
seu
próprio
existir: o da
linha inquieta, da
narrativa
densa e da condensada
interpretação
psicológica.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).