Adélio
Sarro
As transparências
da cor
Muito trabalho e
muito talento são os dois fatores fundamentais que levaram o
artista plástico ao sucesso. Com mais de 150 exposições
nacionais e internacionais no currículo e mais de 2.500 obras,
este filho de agricultores foi carpinteiro, marceneiro, cortador
de mármore e desenhista de cartazes de propaganda antes de
conseguir ganhar a vida apenas como pintor e escultor.
As
imagens de Sarro apresentam trabalhadores rurais, mulatas, famílias
e grupos de crianças, a maioria de mãos fortes e pés descalços.
Seu trabalho com as tintas caracteriza-se pelas transparências
e tons suaves harmoniosos, enquanto suas esculturas fascinam
pela grandiosidade.
Adélio
Sarro nasceu em 7 de setembro de 1950, em Andradina, interior do
Estado de São Paulo, onde o avô materno tinha uma pequena
fazenda, num local chamado Córrego da Abelha. Seu berço foi um
caixote de cebola adaptado com pés de madeira – o que mostra
bem como a sua vida foi marcada pela pobreza e por dificuldades
de todo tipo.
Filho
de José e Natalina, ambos agricultores, respectivamente de
origens italiana e portuguesa, sem nenhuma experiência com
artes plásticas, o menino Adélio foi criado embaixo de pés de
café. Seus melhores companheiros, já na infância, eram pedaços
de papel de embrulhar pão, nos quais desenhava com qualquer
tipo de lápis que encontrava.
Natalina
recorda que, naqueles anos, era difícil comprar alimento para a
família e que ela só tinha dois vestidos: um que ficava no
corpo e outro no varal. Mesmo com dificuldades, o menino foi
crescendo e, aos quatro anos, subiu num caixote de madeira para
olhar com curiosidade a imagem de um Sagrado Coração de Jesus
impresso num calendário. Logo em seguida, fez a reprodução. A
mãe mostrou o desenho a um padre, que, impressionado, disse:
“Esse menino será artista”.
O
religioso não se enganou, mas a trajetória de Adélio não foi
simples. Os primeiros anos de vida foram de muito trabalho na roça,
acordando muito cedo para ajudar os pais. Nada indicava que um
dia ele poderia concretizar as palavras do sacerdote e viver de
sua atividade como artista plástico.
Em
busca de maiores oportunidades de trabalho, a família de Sarro,
em 1958, quando ele tinha oito anos, vendeu o sítio que tinha e
se mudou para Britânia, no interior de Goiás. A viagem foi
inesquecível. A jornada durou 13 dias sobre um velho caminhão,
passando por uma região quase inexplorada.
Quando
chegaram na região, não havia nada: apenas mata e descendente
de índios. A única alternativa foi retornar para o Estado de São
Paulo. A família se estabeleceu então em Auriflama, perto de São
José do Rio Preto, numa fazenda chamada Barraca. Ali, Adélio
continuou trabalhando na roça com os pais, em plantações de
café e arroz. Morava numa casa feita de barro coberta de sapé
e acompanhava o pai, quando ele ia pescar peixe para eles terem
algum tipo de carne nas refeições.
Sem
alternativas, a família foi para Dracena, para um sítio de
Pedro Sarro, avô paterno do artista. O trabalho no campo
continuava e o sonho de ser pintor alimentado pelo elogio do
padre parecia cada vez mais distante. Mas a vontade de desenhar
continuava viva e Adélio fez um retrato de Pedro, infelizmente
perdido, que impressionou a todos.
O
pai (1927-1993) começou a trabalhar como pedreiro, na construção
civil, e Sarro, para ajudar, vendia papel e cacos de vidro que
catava na rua e nos lixões. Conseguia assim restos de tinta e
de panos para pintar suas primeiras obras, paisagens do
interior. Em Dracena, havia uma vidraçaria que expunha, na
vitrine, alguns quadros de artistas, com os quais, anos mais
tarde, Sarro viria a expor na Praça da República, em São
Paulo, SP.
As
dificuldades financeiras continuavam. A família enfrentou
momentos difíceis, com o falecimento de um irmão de Adélio,
no nascimento, e um acidente do pai, que caiu do telhado
de uma casa em que trabalhava. Para completar o orçamento doméstico,
a mãe precisava lavar roupa para fora e o próprio Adélio começou
a utilizar a sua habilidade no desenho para fazer cartazes para
lojas na cidade.
Aos 14 anos, em
1964, Sarro decide se tornar religioso. Muda então para a
cidade de Piracicaba, onde estuda no Seminário Seráphico São
Fidélis, local onde já estudava um primo.
O período foi de intensa reflexão e de solidão, e a
vivência com os padres no seminário o levou a aprender muito
sobre arte sacra.
Sarro
desenhou inúmeros papeis com as figuras de Jesus e São
Francisco, ficando claro que essa atividade criativa lhe era bem
mais interessante que ler a Bíblia. Isso levou um dos dirigente
do seminário a observar que o menino não tinha vocação
religiosa, mas, talvez, artística. Ao constatar a ausência de
vocação para a vida de sacerdote, Adélio voltou a Dracena.
Quando
a irmã Aparecida, excelente bordadeira e tricoteira, mudou-se
para São Caetano do Sul, em 1966, para se casar, Adélio, com
16 anos, pediu para ir junto. Ele sabia desenhar, mas não
conseguiu um local para ficar. Ao sair de Dracena, disse ao
padre local que um dia pintaria aquela igreja, dedicada a Nossa
Senhora Aparecida. Cumpriu as suas palavras de uma maneira ainda
mais significativa, pois, anos depois, trabalhou na principal
casa da santa, a Basílica de Nossa Senhora em Aparecida do
Norte.
Logo
depois, a família toda se mudou para São Caetano, onde Adélio
voltou a ajudar o pai como pedreiro. Ingênuos, não foram
poucas as ocasiões em que trabalhavam muito e não recebiam o
pagamento prometido. A vida era tão dura, que ele teve que
parar de estudar, só conseguindo completar até a quarta série.
Lembra até hoje que, curioso por conhecer o sabor de uma maçã
e não ter dinheiro para comprar, comeu pedaços que encontrou
numa lata de lixo. Curiosamente, anos mais tarde, Sarro faria
diversas esculturas no município.
Para
ganhar mais, Sarro trabalhou também como metalúrgico, mas
achou o serviço monótono, ficando na atividade por apenas dois
meses. A situação começou a mudar graças a um amigo de
Dracena, Gilberto Macário, que desenhava muito bem. Ele e Adélio
já haviam feito inclusive letreiros em cidades como Junqueirópolis
e Panorama.
Gilberto
foi morar em São Paulo, com a avô, e começou a trabalhar numa
oficina de pintura de painéis de propaganda e Sarro foi
aprender com ele técnicas de pintar letreiros, painéis de
estradas e faixas. Além do trabalho regular, começou a fazer
serviços extras para aumentar o salário.
Sarro
morava com a família numa casa de dois cômodos perto de uma
cerâmica, em São Bernardo do Campo. Com muito esforço, foi
possível comprar um terreno em Diadema, onde a mãe do artista
mora até hoje. Na época, ali havia poucas casas e o chão era
de barro, tornando quase impossível o acesso quando chovia.
O
cotidiano de Sarro era heróico. Caminhava de sua casa 2 km até
o centro de São Caetano, de onde, pegava um ônibus até Santo
André. Depois, novo percurso a pé até a oficina onde
trabalhava. Economizava nos ônibus para pagar o aluguel e, nos
sábados e domingos, ajudava o pai para construir a casa de dois
cômodos para eles mudarem.
Após
a mudança, embora a casa fosse própria, o transporte era ainda
mais difícil. Caminhava até a avenida Taboão, tomava um ônibus
até Rudge Ramos e outro até Santo André, tendo que andar mais
um pouco até chegar a empresa. Depois do expediente e nos
finais de semana, fazia placas para estandes de supermercados.
Assim, ia dormir às 2h e acordava às 6h todo dia.
A
vida mudou quando conheceu o programador visual Ari Saponara.
Ele estimulou Sarro a produzir as letras para propagandas. Para
isso, era preciso muita disciplina, pois qualquer distração
levava ao erro. Nesse período, também aprendeu serigrafia, uma
técnica então nova no Brasil. Não havia professores, e o
jeito era ir experimentando, aprendendo com os acertos e os
erros.
Sempre
em busca de condições melhores de trabalho, Sarro passou por várias
empresas. Numa delas, conheceu um rapaz, da seção de
luminosos, que era de Brodósqui. Convidado ao casamento do
amigo, ele aceitou. Viajou em seu fusca velho, que utilizava
para carregar placas e objetos de pintura .
Na
cidade paulista, teve a oportunidade de visitar o Museu Casa de
Portinari, pintor que sequer conhecia. Ficou maravilhado com o
que viu. Quando chegou especificamente no ateliê, o local de
trabalho do pintor, viu uma tela ali deixada em branco e sentiu
a necessidade de tocá-la.
Sarro
lembra que ficou todo arrepiado e que sentiu uma energia imensa
lhe percorrer o corpo. Questionou-se: “O que faço com a
propaganda? Meu mundo é este aqui”. Decidiu então que
direcionaria todo os seus esforços para abraçar a carreira.
Para isso, começou a fazer aquilo que sempre soube: trabalhar
muito – e com grande dedicação.
O
artista profissional, então em nascimento, ficou maravilhado não
só com os quadros de Portinari, mas com a vitalidade dos
afrescos e as imagens da capela de Brodósqui realizados pelo
artista carioca. Daquele diante, não conseguiu esquecer as
cores utilizadas pelo pintor e os temas sociais por ele
retratados. Mais tarde, fez numerosas esculturas para a cidade.
No
momento em que decidiu ser artista, Sarro começou a exercitar
muito a sua vocação. Não foram poucas as ocasiões em que,
insatisfeito, pintava diversas vezes a mesma tela, com uma
imagem sobre a outra, até chegar a um resultado que o
agradasse. Mostrava assim a sua busca incessante por uma solução
estética cada vez mais melhor.
O
artista começou então a aprimorar o próprio trabalho. Admite
que não tinha ainda grande técnica ou conhecimento de arte,
mas realizava com toda dedicação suas primeiras paisagens e
figuras. No ato de pintar várias vezes uma tela, descobriu o
processo do uso de transparências,
principalmente com as cores azul e vermelha.
O
passo seguinte, em 1972, foi expor na feira de arte da Praça da
República, em São Paulo. Fez um teste e conseguiu a licença
concedida pela prefeitura. Nessa época, pintava paisagens, num
trabalho que hoje acha pouco importante, mas que mostra o
amadurecimento a que sua obra chegou com o passar dos anos.
Ainda
em 1972, fez a sua primeira exposição individual no Centro de
Convenções de São Bernardo do Campo, cidade que adotou como
sua. A partir daí, nenhuma oportunidade de mostrar o trabalho
era deixada de lado. O importante era tornar a sua pintura
conhecida para atrair clientes.
Na
Praça da República, ficava ao lado de alguns daqueles pintores
que expunham em Dracena e que admirava. A Praça era ideal para
aqueles que, como ele não tinham aceso às galerias de arte
paulistas. Além disso, o local permitia contato direto com
muitos estrangeiros, principalmente alemães, franceses,
italianos e suíços, que estavam de visita a São Paulo e
queriam levar alguma pintura brasileira para seus países de
origem.
No
começo, com medo de usar a cor, Sarro pintava em tom sépia,
depois ficou maravilhado com as potencialidades do azul e começou
a misturá-lo com o sépia, atingindo resultados de grande
beleza e muito pessoais. Houve assim uma grande evolução do
artista autodidata em termos de aperfeiçoamento do traço, do
uso da cor e do conhecimento de formas. Portinari é uma de suas
inspirações obrigatórias, assim como Picasso, Chagall,
Gauguin, Van Gogh e os muralistas mexicanos Rivera, Orozco e
Siqueiros.
Tudo
na Praça era muito difícil. Como não tinha dinheiro para
comprar materiais de qualidade, Sarro fazia o chassis das telas
com tábuas de caixote velhos. Também fabricava, como faz até
hoje, as telas e molduras. Trabalhava durante o dia com montagem
e decoração de lojas e com propaganda, pintando à noite,
todos os dias, inclusive sábado e domingo ao retornar da Praça.
O
esforço foi recompensado. Houve uma indicação de seu nome
para o proprietário da hoje extinta Galeria Domus, que gostou
dos trabalhos, mas o achou com uma temática forte, difícil de
comercializar. Sarro não se intimidou. Disse que deixaria os
quadros para esperar o que acontecesse. E as vendas logo começaram.
O
artista ficou na Praça da República de 1972 a 1984. Nesse ano,
o galerista ligou para Sarro, dizendo que ouvira dizer que o
artista expunha aos domingos na Praça da República – e isso
desvalorizava , para muitos o seu trabalho, pois o viam como um
pintor de final de semana, não como um profissional das tintas.
Sarro respondeu que, de fato, havia exposto lá. E nunca mais
apareceu na Praça, a não ser um par de vezes para visitar
alguns amigos que lá deixou.
Certa
vez, um crítico disse que Sarro plagiava o trabalho de um
artista chamado Sinval. Isso era impossível, porque o pintor de
Andradina não conhecia essa pessoa e muito menos os seus
quadros. Mais tarde, se conheceram e se tornaram amigos, tendo
participado juntos de alguns salões de arte.
Em
1981, seis instituições japonesas organizaram exposições de
obras de Sarro. No ano seguinte, expôs no Museu de Arte de São
Paulo e no Museu de Arte de Florianópolis, Em 1983, foram os
italianos que se encantaram com o seu trabalho. Paralelamente,
realizou mostras em mais de 20 cidades brasileiras.
Gradualmente, levou o seu talento para Milão, Bolonha, Roma (no
Palácio Dora Pamphili, que abriga a embaixada brasileira),
Paris, Buenos Aires, Miami e Lisboa, entre outros locais. Em
1988, trabalhos foram adquiridos pela Fundación Rali – Museu
Latino Americano, de Punta del Este, Uruguai.
Em 1984, surgiu o Grupo 11 Caminhos, integrado por Blanco
Y Couto, Cazarré, Christina Motta, Elvio Santiago, Henry Vitor,
Jorge Branco, Otoni Gali Rosa, Sarro, Sinal, Tomzé e Vilela.
Quem tinha um cliente o levava aos outros, abrindo portas por
galerias e colecionadores de todo o Brasil. O grupo durou quatro
anos, mas se desfez devido a divergências entre os integrantes.
Enquanto durou, ajudou a divulgar os artistas e gerou até a
publicação de um livro, em 1987, com coordenação da crítica
Josette Mazzella di Bosco Balsa.
Cada
integrante seguiu o seu caminho. Sarro prosseguiu pintando,
pesquisando e vendendo. Em 1992, lançou o livro Retrospectiva
20 anos, na galeria de Jorge Mabe, irmão do pintor Manabu
Mabe. Na ocasião, conheceu o colecionador e marchand suíço
radicado no Brasil Marcel Markus, que o levou para uma exposição
naquele país.
Eles
estabeleceram então uma parceria de exposições e viagens pela
Europa, Austrália e Singapura, que se mantém até hoje e que
levou Sarro a viajar com seus quadros por quase todo o mundo,
inclusive a Rússia, em 2005. A estratégia é investir o
dinheiro ganho com a venda de quadros em materiais de pintura e
viagens. Assim, novos mercados e oportunidades são abertos
constantemente.
A primeira exposição
dessa fase é, em 1993, em Zurique, Suíça. Seguem-se mostras
em Genebra, Nova York e Las Vegas. Em 1997, a pequena cidade de
Kevelaer, Alemanha, foco de peregrinações católicas por causa
de sua catedral, impressiona Sarro e o leva a se aprofundar na
arte sacra.
Ainda
na Alemanha, o farmacêutico Gerd Wolf indicou a cidade de
Klingenmünster como um local em que Sarro poderia desenvolver
ainda mais o seu trabalho. Deu certo, pois o talento aproveitou
ao máximo a iniciativa de Marianne Mathis de tornar o nome
Sarro marca de vinho, com rótulos com obras do artista. Na
cidade, o produto é comercializado junto à exposição das
pinturas do artista brasileiro. Em 2001, elabora um vitral para
o mosteiro local, fundado no do século XI.
Em
1999, as pinturas de Sarro são exibidas no Fórum Econômico
Mundial de Davos, na Suíça. Uma escultura de pequeno porte, em
bronze e 12 grandes quadros tratando sobre crianças carentes
chamam muito a atenção. Único representante das artes plásticas
brasileiras no evento, o artista alerta sobre a importância dos
jovens não caírem na marginalidade, numa mensagem que toca o
coração de todos os presentes ao evento.
No
mesmo ano, Sarro esteve pela primeira vez na Austrália, país
que pouco conhece da arte brasileira. Divulgou a sua obra em
Melbourne. Dois anos depois, realizou exposições naquela
cidade, em Sydney e Perth. Também esteve no Museu de Arte de
Singapura, para dar uma palestra sobre arte latino-americana.
Em
2000, o artista brasileiro foi para Bergen, cidade da Noruega
com grande tradição cultural. Ali reencontrou, por acaso, a crítica
Josette Balsa, a mesma que
escrevera os livros sobre o Grupo 11 Caminhos, que Sarro
integrara, e sobre os 20 anos de sua carreira (1972-1992). Ela
mora agora em Hong Kong e estava na Noruega, estabelecendo
parcerias entre o museu da cidade onde mora e o município
europeu. Na oportunidade, Sarro recebeu novas orientações
sobre possibilidades de exposições e contatos com museus.
Além
do trabalho como pintor, a partir dos anos 1990, Adélio Sarro
começou a desenvolver uma nova faceta: a de escultor de murais
e de obras de grandes proporções. As primeiras experiências
com cimento e concreto foram em 1988. Ele sempre concebeu a
pintura como uma escultura pela grandeza épica e pela textura e
começou a explorar esse conceito.
Devido
a sua experiência como servente de pedreiro, Sarro já tinha
grande conhecimento de como trabalhar com materiais como
concreto e ferragens. Esculpido em concreto e resina, em 1990,
sobre os três arcos de sua casa em São Bernardo, o painel Resposta
da vida mostra desde a sua infância como trabalhador rural
à ignorância do ser humano, sempre envolvido em guerras.
Mistura assim elementos da própria vida com a história da
humanidade.
Encomendas começaram
a surgir em numerosas cidades, como São Bernardo do Campo, São
Caetano do Sul, Santo André, Brodósqui, Jardinópolis, Marília,
Ribeirão Pires, Vera Cruz e Araras, entre outras. São cerca de
15 monumentos, alguns com diversas figuras, totalizando
aproximadamente 130 trabalhos escultóricos.
As
obras mais grandiosas foram em Aparecida do Norte. Tudo começou
com a feitura de um painel para o Teatro de Osasco. Daí surgiu
a indicação para realizar um trabalho com o mesmo material –
concreto – na cidade que é o principal centro religioso do país.
O convite foi para fazer a Via Sacra. Sarro fez uma maquete, que
foi aprovada.
Assim,
em 1999, construiu 14 painéis (número das estações do
caminho de Jesus até o Calvário). A inauguração foi em 2000,
com a presença de 500 mil fiéis. Realizou ainda um portal com
mãos enormes em posição de prece, um grande painel na nova
capela da Via Sacra e outro dentro da Basílica de Aparecida do
Norte.
Outros
trabalhos de Sarro em Aparecida são os portais de entrada com
cabeças de bispos com 2 m de diâmetro e painéis inaugurados
em 29 de março de 2005, de relevo policromado na Capela de São
José, também na Basílica. São todas obras monumentais, que
impressionam pelo tamanho e qualidade.
As
obras realizadas em Aparecida do Norte geraram contatos com uma
organização que sustenta projetos contra a miséria na América
Latina, a Advniat, sediada na Alemanha. O trabalho de Sarro
gerou grande impacto e foi feita uma exposição em Essen, sede
da entidade. Como resultado, o tríptico Liberdades da vida
é adquirido para a recepção do Banco da Diocese local.
Sarro
tem uma grande produção de pinturas a óleo e esculturas. A
base dessa riqueza, porém, está, em grande parte, nos seus
desenhos. Ele tem um acervo de mais de 900 deles, muitos ligados
às suas origens, ao mundo rural, que conheceu tão bem quando
trabalhou na roça, em contato direto com a natureza.
A
obra do artista, em suas mais diversas facetas, principalmente
pelo uso todo especial do azul, vermelho e rosa,
costuma encantar as crianças. Atividades com elas são
desenvolvidas, por exemplo, na Alemanha, e principalmente em sua
cidade natal, Andradina, na qual a criação de desenhos,
poesias, paródias, pensamentos e acrósticos são estimuladas
em atividades coordenadas pela professora Sandra Maria Pardo
Soares, que estimula os alunos a despertarem para o mundo das
artes e das cores a partir do principal criador plástico da
cidade, a quem o município dedicou inclusive um Memorial.
O
uso da cor e das formas avantajadas, a ligação do ser humano
com a terra e os animais, como pássaros, papagaio, gato,
carneiro ou boi, além da presença constante de instrumentos
musicais, como uma
flauta, um violão ou um bandolim, tornam a obra de Adélio
Sarro diferenciada.
A
vida e a obra de Sarro se confundem justamente na capacidade do
artista de tratar esses e outros temas de uma forma muito
pessoal. O esforço de toda uma vida e a produção incessante
desenvolveram um talento já presente na infância para a produção
de obras maravilhosas.
O
apurado trabalho com as transparências da cor é utilizado na
construção de imagens
tocantes sobre o trabalho rural e a momentos de intensa integração
do ser humano ao universo, seja por meio do amor aos animais, à
natureza ou à música. Desse modo, o pintor de Andradina
estabelece a sua harmonia universal e mostra a possibilidade de
um mundo melhor em que a arte seja valorizada como uma das mais
genuínas expressões da mente humana.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de
Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).