por Oscar D'Ambrosio


 

 


Adélia Klinke

 

            As transparências da cor

 

            O poeta Mário Quintana dizia que “há uma cor que não vem nos dicionários. É essa infindável cor que têm todos retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais...”. O raciocínio se aplica à arte de Adélia Klinke. Intensa colorista, trabalha com as cores e as formas de uma maneira bastante pessoal, em que elementos do cotidiano surgem sempre renovados em leituras estéticas indagadoras.

            Nascida em Cidade dos Jesuítas, PR, completou seu bacharelado em Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, em 1993. Dali em diante, freqüentou diversas oficinas e cursos voltados para um maior conhecimento de história da arte e do próprio oficio artístico.

            A convivência com professores como Iole de Natale e Paulo Pasta e a admiração de artistas como o norte-americano Julian Schnabel, de quem, de alguma maneira, se apropria criativamente, principalmente no uso da justaposição de cores para criar resultados artísticos expressivos, gera um trabalho que não deixa o observador passivo.

            Em grande parte, isso se deve à maneira como a pintura se dá. Seu universo é o das opacidades e das transparências. Nesse sentido, há uma constante procura pelo efeito de veladuras, seja pela sobreposição de camadas de tinta, seja pela forma como o desenho se articula com o conjunto do trabalho para gerar surpresas.

            Se, de 1993 a 1999, o trabalho de Adélia se voltou fundamentalmente para a aquarela sobre papel e para o óleo sobre tela, depois, a tinta acrílica e outros materiais passam a predominar. Mais importante do que o suporte, porem, é a atitude da artista em suas cores e imagens.

            Embora partam em sua maioria de elementos concretos do cotidiano, as figuras resultantes do trabalho da artista ganham uma intensa expressividade. O referente muitas vezes se dilui ao ponto de praticamente desaparecer e de dar a impressão de que se trata de uma obra abstrata.

            Talvez uma tela que exemplifique bem essa faceta do trabalho de Adélia é a que surgiu como um desafio de colocar em sua composição uma escada, elemento que sempre oferece dificuldade pela sua própria estrutura formal, com  degraus horizontais em meio a uma estrutura binária horizontal.

            Terminada a obra, o que temos é a mencionada escada integrada num conjunto de outros elementos em que as cores e manchas utilizadas prevalecem sobre o objeto que deu origem à tela. Esse procedimento se repete em outras imagens, nas quais o jogo com as transparências da cor é o que salta aos olhos.

            As telas de Adélia, que realizou individuais em São Paulo, São Carlos e São Bernardo do Campo, se destacam justamente pela maneira como as cores vívidas saltam aos olhos e oferecem ao espectador uma nova dimensão da realidade. O referente concreto utilizado é o que menos importa. Seja uma cadeira, uma mesa ou um vaso de flores, ele sucumbe perante a forma como a artista trabalha a tinta.

            As cores que Adélia atinge, principalmente uns especiais tons de lilás e roxo são a   mostra de que a linguagem artística sobrevive em si mesma por seus elementos constituintes – cores, formas, sombras ou constrastes. A figura ao ou falta dela é mais um elemento lúdico e estético para, como apontava o poeta Mário Quintana, atingir cores e jogos de luz próprios que, presentes ou não nos dicionários, fazem a riqueza visual de coloristas como Adélia Klinke.   

 

             Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo)

 

 

 

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 Acrílica sobre tela - 76x90 cm  - 2002

Adélia Klinke

 

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