Adélia
Klinke
As transparências
da cor
O poeta Mário
Quintana dizia que “há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa infindável cor que têm todos retratos, os figurinos da
última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos,
certas tabuletas, certas ruazinhas laterais...”. O raciocínio
se aplica à arte de Adélia Klinke. Intensa colorista, trabalha
com as cores e as formas de uma maneira bastante pessoal, em que
elementos do cotidiano surgem sempre renovados em leituras estéticas
indagadoras.
Nascida
em Cidade dos Jesuítas, PR, completou seu bacharelado em Artes
Plásticas na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, em 1993.
Dali em diante, freqüentou diversas oficinas e cursos voltados
para um maior conhecimento de história da arte e do próprio
oficio artístico.
A
convivência com professores como Iole de Natale e Paulo Pasta e
a admiração de artistas como o norte-americano Julian
Schnabel, de quem, de alguma maneira, se apropria criativamente,
principalmente no uso da justaposição de cores para criar
resultados artísticos expressivos, gera um trabalho que não
deixa o observador passivo.
Em
grande parte, isso se deve à maneira como a pintura se dá. Seu
universo é o das opacidades e das transparências. Nesse
sentido, há uma constante procura pelo efeito de veladuras,
seja pela sobreposição de camadas de tinta, seja pela forma
como o desenho se articula com o conjunto do trabalho para gerar
surpresas.
Se,
de 1993 a 1999, o trabalho de Adélia se voltou fundamentalmente
para a aquarela sobre papel e para o óleo sobre tela, depois, a
tinta acrílica e outros materiais passam a predominar. Mais
importante do que o suporte, porem, é a atitude da artista em
suas cores e imagens.
Embora
partam em sua maioria de elementos concretos do cotidiano, as
figuras resultantes do trabalho da artista ganham uma intensa
expressividade. O referente muitas vezes se dilui ao ponto de
praticamente desaparecer e de dar a impressão de que se trata
de uma obra abstrata.
Talvez
uma tela que exemplifique bem essa faceta do trabalho de Adélia
é a que surgiu como um desafio de colocar em sua composição
uma escada, elemento que sempre oferece dificuldade pela sua própria
estrutura formal, com degraus
horizontais em meio a uma estrutura binária horizontal.
Terminada
a obra, o que temos é a mencionada escada integrada num
conjunto de outros elementos em que as cores e manchas
utilizadas prevalecem sobre o objeto que deu origem à tela.
Esse procedimento se repete em outras imagens, nas quais o jogo
com as transparências da cor é o que salta aos olhos.
As
telas de Adélia, que realizou individuais em São Paulo, São
Carlos e São Bernardo do Campo, se destacam justamente pela
maneira como as cores vívidas saltam aos olhos e oferecem ao
espectador uma nova dimensão da realidade. O referente concreto
utilizado é o que menos importa. Seja uma cadeira, uma mesa ou
um vaso de flores, ele sucumbe perante a forma como a artista
trabalha a tinta.
As
cores que Adélia atinge, principalmente uns especiais tons de
lilás e roxo são a
mostra de que a linguagem artística sobrevive em si
mesma por seus elementos constituintes – cores, formas,
sombras ou constrastes. A figura ao ou falta dela é mais um
elemento lúdico e estético para, como apontava o poeta Mário
Quintana, atingir cores e jogos de luz próprios que, presentes
ou não nos dicionários, fazem a riqueza visual de coloristas
como Adélia Klinke.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo)