por Oscar D'Ambrosio


 

 
 


A dança do universo

 

            Quando se assiste à peça A dança do universo, de Oswaldo Mendes, inspirada livremente no livro homônimo de Marcelo Gleiser, uma primeira impressão é que se está perante um jogo de idéias entre aqueles que defendem a busca racional do conhecimento e visões de mundo em que o ser humano permanecesse na ignorância sobre si mesmo e sobre o universo que o cerca.

            A grande discussão da apresentação teatral que o Grupo Arte Ciência no Palco, da Cooperativa Paulista de Teatro propõe, porém, nos diálogos entre diversos cientistas e nos números musicais que os acompanham, é, além da viagem pelo conhecimento que o homem tem do universo, uma jornada por aquilo que cada espectador pensa da própria existência.

            Ao contemplar o mundo e explicá-lo pelas mais variadas versões mitológicas, desde as gregas até as de outras civilizações, o homem coloca-se como um personagem nesse mundo, que, certamente, é maior do que ele consegue entender com o seu pensamento mágico, religioso ou mesmo científico.

            A peça, em exibição no Teatro João Caetano, em São Paulo, enfoca, por exemplo, a oposição entre o poeta romano Lucrécio, um mestre da arte de perguntar e buscar o sentido do mundo, e Santo Agostinho, que pregava a pesquisa do mundo interior como a residência da resposta de todas as indagações.

Se Lucrécio buscava a sabedoria das coisas nelas mesmas, Agostinho acreditava que olhar para o mundo exterior pode estimular à tentação ao pecado, pois dentro de cada indivíduo gerado por Deus estão as respostas de todos os enigmas. Se o Santo tivesse a luneta, a apontaria para o interior de sua alma e de seu coração, pois assim acreditava estar se aproximando de Deus.

Já Galileu Galilei, com o mesmo instrumento, o direcionou para as estrelas e, ao afirmar que a terra girava em volta do sol, como Copérnico, abjurou desse pensamento para não ser queimado na fogueira. Não seguiu o exemplo de Giordano Bruno que, fiel aos seus princípios até o fim, ardeu com eles.

            A perseguição contra os homens de ciência é lembrada na peça por meio do sábio Sócrates, obrigado a beber cicuta, e o pernambucano Mário Schemberg, censurado pela ditadura militar por ser comunista e, anos mais tarde, homenageado pela USP. Com uma personalidade ímpar e respeitado por cientistas de renome, como Gamov, Prigogine e Pontecorvo, alçou a física nacional a patamares mundiais.

            Impossibilitado de lecionar pela ditadura verde-amarela, Schemberg notabilizou-se como um dos maiores críticos de arte do país. Mostrou claramente como um homem de ciência pode ser um ser humano das artes e se apaixonou, principalmente pelos pintores populares, contribuindo decisivamente para que alguns deles, como o baiano Waldomiro de Deus, alcançassem destaque.

            Arte e ciência também dialogam na peça quando ocorre a conversa imaginária entre dois ícones da inteligência e da sensibilidade: Einstein e Chaplin. Os limites e a função do cinema, da matemática e da física são evocados, evidenciando que a grande colaboração de ambos para a humanidade está no legado que deixaram.

            O físico, perseguido pelos nazistas na Alemanha e o ator, expulso pelos norte-americanos que o consideravam comunista, vivenciaram o desrespeito pelas suas idéias e talento. Mesmo assim, nunca se entregaram. O primeiro elaborou a Teoria da Relatividade Restrita, que completa cem anos em 2005, e o segundo é reconhecido pelo mundo como um das maiores expressões do cinema de todos os tempos.

Mesmo assim, ambos receberam o maior prêmio de sua área, o Nobel, em circunstâncias, no mínimo curiosas. Einstein ganhou o Prêmio Nobel de Física de 1921, não pelos seus trabalhos sobre relatividade e gravidade, mas pelo efeito foto-elétrico, que é uma manifestação da natureza quântica da luz.

Chaplin, por sua vez, só recebeu um Oscar como autor de trilha sonora, de Luzes da Ribalta, e dois honorários, um pela contribuição ao desenvolvimento da técnica cinematográfica, em O circo, e outro pelo conjunto da obra. Nunca, porém, foi agraciado como ator ou diretor, embora seja considerado um marco na história da sétima arte.

Talvez Einstein e Chaplin não tenham sido agraciados pelas obras e atividades que os tornaram mais célebres justamente por sempre estarem em posições de vanguarda, difíceis de reconhecer pelas instituições conservadores que geralmente governam a entrega desse tipo de láurea.

            Enquanto o físico alemão e o ator inglês enfrentaram resistências pelas suas visões de mundo, e Galileu, Sócrates e Schemberg foram perseguidos, respectivamente,  pelas suas visões de ciência, educação e política; o luterano Kepler surge na peça como um homem angustiado pela busca constante de trabalho para ganhar dinheiro com as suas pesquisas – o que o levou a trabalhar, em Praga, com o astrônomo Tycho Brahe.

            Na concepção de Mendes, embora alguns dos numerosos pensadores da ciência citados na peça raramente tenham se encontrado, eles dialogam no mundo das idéias. Outros, porém, foram contemporâneos e viveram em constante rivalidade. É o caso da cena em que Isaac Newton, durante conversa com a sobrinha e o marido dela, destila sua revolta contra dois contemporâneos (Leibniz e Hooke), com os quais disputou a primazia de pesquisas. 

            Enfim, as indagações de Lucrécio, a pesquisa do mundo interior de Agostinho, a abjuração polêmica de Galileu para se salvar da fogueira, a busca de maneiras de ganhar dinheiro com a ciência de Kepler, as rivalidades e disputas em que Newton se envolveu, a perseverança de Einstein e as injustiças cometidas contra Schemberg mostram que a A dança do universo, de Oswaldo Mendes, não é apenas sobre ciência e conhecimento, mas, acima de tudo, sobre o dilema humano de existir.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é coordenador de imprensa da Universidade Estadual Paulista (Unesp), integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

 

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