por Oscar D'Ambrosio


 

 


A crise da arte

 

            O mundo da arte pode ser visto como um universo em que o produzir arte, vendê-la e consumi-la forma uma tríade de complexos relacionamentos. Alguns dados são muito curiosos nesses elos como, por exemplo, o fato de nem sempre a pessoa que tem dinheiro para comprar ter uma formação adequada para discernir, por exemplo, entre o trabalho de qualidade e aquele que apenas repete modas estrangeiras.

            Ao tratar dessas relações no Capítulo 7 de seu livro Arte moderna, Giulio Carlo Argan, aponta, inicialmente, que, após a Segunda Guerra, o novo centro do mundo da arte passa a ser Nova York (1). Os EUA passam a ter então uma posição de hegemonia mundial e de produção de uma arte “autônoma”, no sentido de não louvar as produções do passado europeu, convivendo com a action painting e a pop art como se fossem, de certo modo, os marcos iniciais da arte.

            Enquanto a primeira defende a força do gesto, a segunda se volta para a apropriação da cultura pop como mecanismo de expressão. A arte chamada conceitual, logo em seguida, com sua raiz metalingüística seria o extremo desse raciocínio, em que se faz arte apenas para refletir sobre o que ela é, num processo que conduz paulatinamente a um grande vazio.

            Argan considera que os EUA, com sua hegemonia no mundo artístico do pós-guerra, teriam levado a três problemáticas igualmente graves e interligadas: a eliminação da idéia de arte como algo sublime; o entendimento dela como a simples existência de um objeto, sem a discussão de sua finalidade; e a louvação do emprego de qualquer técnica, desde que permita que essa arte se insira no mundo da comunicação de massa.

            A crise da arte estaria então vinculada a uma desvalorização do próprio pensamento sobre o que significa a arte e, acima de tudo, aos elos estabelecidos, de uma forma cada vez mais profunda, entre a imagem, a cultura de massa e a sociedade industrial. O que passa a ter valor não é o objeto de arte em si mesmo, mas o valor financeiro que cada objeto tem.

            Uma expressão concreta disso pode ser encontrada nos grandes colecionadores de todo o mundo. Ao mostrarem suas obras, não se referem a elas como trabalhos artísticos, analisando seus elementos intrínsecos, como equilíbrio, cor ou luz. Eles a tratam como “tenho um Portinari, um Rembrandt”.

            Nessa visão, a assinatura é mais importante que o quadro. O mercado de arte, seguindo essa lógica, valoriza mais a assinatura do que o trabalho em si mesmo. Não importa o que é feito, mas sim quem assina. Essa valorização do artista, enquanto produtor do trabalho, sob uma espécie de aureola mística e mesmo mística, remonta, como é possível lembrar, ao próprio romantismo, em que, muitas vezes, o criador é mais importante do que a sua criatura artística.

            Argan verifica então que os artistas se colocam em dois grupos: o dos “inseridos no sistema tecnológico-industrial e o dos artistas que não renunciam ao papel de intelectuais” (página 511). Assim como o realismo socialista russo colocava a sua arte a serviço da propaganda política, os artistas do primeiro grupo estariam voltados apenas em ter sucesso comercial. Qualquer pesquisa estaria voltada para o lucro – e, naturalmente, essa riqueza resulta em poder.

            A pesquisa estética estaria voltada, desse modo, para gerar produtos belos, ou seja, facilmente consumíveis, dando ao artista visibilidade e nome no mercado. Feito esse nome, a qualidade fica em segundo plano, pois o consumidor estaria adquirindo a assinatura e não a imagem que visualiza no quadro (esta, aliás é o que menos importa).

            A conclusão desse raciocínio é que a afamada “crise da arte” teria nos artistas um de seus principais culpados. A partir do momento que deixam pesquisas individuais de lado em nome do mercado, sacrificariam sua arte e se “venderiam” enquanto artistas. Se fizessem sucesso enquanto oposição ao mercado, seria somente enquanto tivessem uma certa “autorização” do sistema para se manter ativas e produtivas.

            Tal raciocínio de Argan, marcado por um profundo romantismo em relação ao artista, joga o criador, para ser autêntico, numa romântica marginalidade, ou seja, ele só poderá ter qualidade se estiver à parte do sistema, o que significa mergulhar num sofrimento sem fim.

            A conseqüência do pensamento de Argan é um círculo vicioso para o artista que deseje se manter virtuoso, ou seja, segundo ele, há dois caminhos: o da inserção no sistema e o de manutenção do papel de intelectual. Aqueles que optam pelo segundo, ao não desejarem a inserção, se marginalizam e, por conseqüência, se afastam cada vez mais do sistema que desejam combater.

            O que resta é muito pouco. Longe do sistema, o artista que preserva a sua capacidade intelectual vende seu trabalhão para quem? E, ao vender, não estaria criando seus próprio sistema, o qual precisaria também combater para manter a coerência estética? Não há saída nesse pensamento, resultado, de uma visão, a meu ver, equivocada, de que o artista precisa ser marginal ao capitalismo para ter qualidade.

            Aquilo que torna o artista melhor é a sua pintura, escultura, gravura ou capacidade técnica e de pensamento de realizar uma obra de arte, independendo da técnica utilizada. A inserção no mercado depende de numerosos fatores – muitos alheios ao próprio artista. E, se inserir, no mercado, tendo sucesso de venda e de público, não me parece um pecado ou uma “venda” ao sistema, como Argan induz a pensar.

            Ter sucesso de venda e de público não é pecado, mas boa parte da historiografia e crítica de arte insiste nessa tese, achando que se inserir no mercado é sinônimo de uma espécie de venda da própria alma ao capitalismo. Tal visão limita a própria capacidade criadora do artista que, se ler Argan, sentirá que precisa ser marginal ao sistema, como Baudelaire, para obter reconhecimento da crítica.

            Pior ainda: Argan considera que se inserir no mercado é praticamente um mal em si mesmo, quase uma mostra de mediocridade quando creio que o pensamento inverso é mais lógico: conseguir inserir uma obra de qualidade num mercado marcado pela mesmice é que constitui o verdadeiro desafio, contribuindo para elevar o gosto comum.

Fazendo isso, o artista não estará rebaixando a sua obra, mas se esforçando para elevar o padrão do gosto do mercado. Ansioso por novidades – algo próprio do modo de agir e pensar do capitalismo –, o sistema abre brechas. Saber aproveita-las é uma prova de talento e de sobrevivência nos concorridos mercados globalizados, não de mediocridade, como Argan nos leva a pensar.

 

            (1) Este texto surge a partir da leitura das páginas 507 a 512 do Capítulo 7 do livro Arte moderna, de Giulio Carlo Argan. As páginas citadas são do mencionado trecho.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

           

 
 



 

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