Achegas para conceituações
do universo da arte popular
Oscar D’Ambrosio
Arte Naïf
A
Arte
primitivista
ou
naïf está
fortemente
vinculada à
arte
popular
nacional,
mas
ainda
não
é
devidamente
valorizada
internamente.
Cabe
lembrar
que
se convencionou
chamar
arte
primitivista
ou
naïf a
que
é produzida
por
artistas
não-eruditos, a
partir
de
temas
populares
geralmente
inspirados no
meio
rural.
O
termo
naïve ("ingênuo",
em
francês),
que
se pronuncia "naíf",
ganha
especial
relevância
entre
artistas
franceses e haitianos
justamente
para
designar
os
pintores
que
rejeitam as
regras
convencionais
da
pintura
ou
que
não
tiveram
acesso
a
elas.
O
termo
naïf está registrado no
Novo
Aurélio: “Diz-se da
arte;
esp.
pintura,
desvinculada da
tradição
erudita
convencional
e de
vanguarda,
e
que
é
espontânea
e popularesca na
forma
sempre
figurativa, valendo-se de
cores
vivas
e simbologia
ingênua”
(Ferreira,
1999, p. 1389). E
também
no
Dicionário
Houaiss: “Diz-se de
ou
certo
tipo
de
pintura,
escultura
etc.
espontânea
e
autodidata,
desvinculada de
escolas
convencionais,
que
resulta
em
composições
primitivas, ger. detalhadas e de
fácil
compreensão”
(Houaiss, 2001, p. 1992).
A
arte
naïf apresenta
geralmente
cores
vivas
e uma
imaginação,
estilização e
poder
de
síntese
levados
para
a
tela
com
uma
técnica
aparentemente
rudimentar.
Em
linhas
gerais,
pode-se
dizer
que
a
arte
naïf
brota
do
inconsciente
coletivo,
mantém-se
em
constante
renovação e se
deixa
penetrar
por
influências
eruditas,
embora
conserve
sua
natureza
própria.
Sabedoria
e
sonho
se irmanam
em
obras
difíceis de
definir
sob
uma
única
catalogação. (D’Ambrosio, 1999)
Para
o
crítico
de
arte
Pellegrini
Filho
(1989), a
arte
popular
se caracteriza
pelo
autodidatismo,
por
técnicas
rudimentares
adquiridas de
modo
empírico,
pela
espontaneidade
e
liberdade
de
expressão,
e informalismo (ausência
de
aspectos
formais
acadêmicos,
como
composição,
perspectiva
e
respeito
às
cores
reais).
A
arte
naïf vem,
pouco
a
pouco,
ganhando
espaço
na
mídia.
Em
1974, os franceses lançaram
um
selo
com
um
quadro
do
mais
famoso
dos
pintores
naïfs, Henri Rousseau,
enquanto,
na Suécia,
caixas
de
fósforos
já
foram enfeitadas
com
imagens
criadas
por
Skum,
um
pintor
ingênuo
esquimó.
Além
disso, há
museus
especificamente de
arte
naïf,
em
Laval, na França;
em
Luzzara, na Itália;
em
Figueras, na Espanha;
em
Esquel,
província
de Chubut, na Argentina; e,
em
Heblime, na Iugoslávia.(D’Ambrosio, 1999)
Chicó localiza os
pintores
naïfs “perto
dos
pintores
amadores
e confundindo-se, muitas
vezes,
com
eles,
relacionados
também
com
os
criadores
de uma
pintura
popular,
os primitivistas distinguem-se
por
uma
posição
estética
definível à
margem
da
arte
erudita,
tradicional
ou
inovadora. Esta é encarada
por
eles
com
alguma
dose
de ingenuidade,
não
apenas
imitativa (caso
comum
nos
amadores)
–
mas
capaz
de
revelar,
por
frescura
de
imaginação,
novas
possibilidades expressivas, influenciando
assim
a
arte
contemporânea”.
(Chicó, 1973, p. 6)
O
alfandegário
aposentado Rousseau (1844-1910) foi valorizado
pelos
intelectuais
de
vanguarda
franceses,
como
o
dramaturgo
Alfred Jarry, o
poeta
Guillaume Apollinaire e os
pintores
Robert Delaunay e Pablo Picasso, e influenciou os
surrealistas.
Graças
a
ele,
outros
pintores
primitivistas foram se impondo, conquistando a
crítica
e adquirindo uma
posição
dentro
da
História
da
Arte.
Basta
citar
que
o
Museu
de
Arte
Moderna
de Paris tem uma
sala
especial
para
os naïfs,
onde
se encontram, ao
lado
de Rousseau, Vivin (1861-1936), Séraphine (1864-1942) e A. Bauchat
(1837-1938),
entre
outros.
Especificamente
em
relação
a Rousseau, Goldwater
vê
no
pintor
francês
o
uso
de uma
tradição
formal
aceita
para
fins
puramente
estéticos;
ou
seja, o
artista
cria
porque
isso
lhe
dá
prazer.
É uma
necessidade
vital.
Por
isso
mesmo,
geralmente
não
existe a
preocupação
em
se
filiar
a
escolas
ou
de
freqüentar
cursos
acadêmicos:
“Essa
atitude
comum
em
relação
a
diferentes
materiais
plásticos
gera
admiração
da
crítica
tanto
em
relação
aos aborígenes
como
aos novíssimos
primitivos”.
(Goldwater, 1986, p. 5)
Sant’Anna aponta
que
há
um
diálogo
entre
a
arte
dita
erudita
e a naïf: "Esses
artistas
populares,
ingênuos
e
primitivos
são
alicerces
da
cultura.
É
através
dos naïfs
que
muitas
vezes
a
chamada
Arte
Oficial
vai se
alimentar;
é
bem
forte
que
germina a
seiva
mais
cristalina,
e dela se bebe,
quando
nos
cansamos de
viver
num
mundo
de
ilusões
e
aparências.
É nessas
pinturas
que
fala
a
voz
do
excluído.
Assim
como
fazem
nos
países
realmente
cultos,
devemos
dar
vivas
aos naïfs do Brasil” (Sant’Anna, 1993, p. 12). "A
arte
naïf
documenta
novas
formas
e
novas
maneiras
de
aprender
e
expressar
os
mistérios
insondáveis
da
vida
com
extraordinária
vitalidade,
espontaneidade
e
beleza",
conclui Spinelli (2000).
Nos
EUA,
por
sua
vez,
a
pintura
primitivista nasceu da
tradição
dos limners –
retratistas
amadores
dos
séculos
XVII a XIX – e foi adquirindo
posição
de
relevo
graças
a
nomes
como
Grandma Moses (1860-1961), J. Frost (1852-1929), H. Poppin (1888-1947) e
J. Kane (1860-1934). (D’Ambrosio, 1999)
O
que
aproxima
todos
esses
artistas,
sejam franceses,
norte-americanos
ou
brasileiros,
é a
consciência
da
autonomia
do
espaço
pictórico,
o
uso
expressivo
e
ornamental
das
cores,
o
toque
onírico
que
diferencia o
universo
criado
da
realidade
e o
sopro
poético
presente
nos
quadros.
Na III
Trienal
de
Arte
Popular
de Bratislava,
em
1972, na
então
Tchecoslováquia,
por
exemplo,
o Brasil se destacou ganhando o
prêmio
de
melhor
representação
nacional.
Para
Ardies, “na
ocasião,
surgiu uma
nova
tentativa
de
nomenclatura,
porque
toda
arte
popular
foi agrupada
sob
o
nome
de
arte
ínsita, do
latim
insatus,
inato.
No
entanto,
nos
últimos
anos,
o
termo
naïf superou
todos
os
demais,
sendo aceito
internacionalmente”.
(Andrade, 1998, p. 22)
Há
até
quem
diga
que
os
quadros
dos primitivistas se assemelham à
pintura
de
crianças.
Jacovsky discorda e estabelece as
diferenças:
"A
pintura
das
crianças
não
é
obra
de
arte.
Para
elas,
não
passa
de
divertimento,
enquanto
para
os primitivistas trata-se do
objetivo
de
suas
vidas.
Eles
abolem o
tempo
e remontam às
fontes,
a
esses
paraísos
infantis perdidos e,
afinal,
reencontrados. O naïf
começa
onde
morre a
criança”.
(Jacovsky, 1976, p. 25)
Bihalji-Merin (1978), julga
que
a
essência
e o
caráter
da
arte
naïf brotam no
campo
anímico
da
inocência
e da
simplicidade.
"Se o
artista
renuncia a
elas,
põe
em
perigo
o
clima
específico
de
sua
arte.
Ao
longo
dos
anos
ou
décadas,
pode
aperfeiçoar
sua
técnica
e mover-se
com
maior
liberdade
em
termos
da
composição.
Porém,
se
sua
sensibilidade
e receptividade diminuem,
começa
a se
repetir
e a
produzir
em
série,
podendo
ocorrer
a
perda
da ingenuidade e da
espontaneidade
imaginativa.
O interessante da
pintura
naïf é
que
se
trata
de
um
estilo
que
não
se aprende.
Ele
nasce
com
quem
o executa.
Cada
pintor
naïf tem
um
estilo
próprio
e
nos
obriga a
entrar
em
contato
com
a
criança
pura
que
existe
em
nosso
interior.
Isso
porque
as
imagens
naïfs podem
tanto
ser
fantasias
delirantes,
como
caricaturas
grotescas
ou
hiper-realistas”. (Bihalji-Merin, 1978, p. 72)
Como
não
é
pintura
acadêmica,
não
se
estuda,
mas
se sente. Marcada
por
imagens
do
cotidiano
e
pela
pureza
de
traços,
cores
e
formas,
a
arte
naïf espalha-se
por
França, Haiti, Iugoslávia, Itália e Brasil, mantendo
um
mercado
bem
específico.
"A
arte
naïf, ao
não
se
incluir
no
variante
vaivém
dos
estilos,
manifesta-se
como
uma
arte
submetida às
suas
próprias
leis.
Não
é uma
arte
contra
os
modernos,
apenas
uma
parcela
artística
mais
subestimada", diz Bihaljin-Merin (1978, p. 75). "Na
obra
dos
pintores
naïfs,
não
há
perspectiva,
o
desenho
é
rústico
e
quase
não
há
mistura
de
cores,
já
que
eles
não
têm
conhecimento
técnico”,
acrescenta Andrade (1998, p. 23).
Para
Andrade, a
arte
naïf é
um
estilo
que
existe há
milênios,
desde
quando
o
homem
desenhava
cenas
de
caça
nas
paredes
das
cavernas.
"Os
artistas
naïfs
são
forçosamente
autodidatas
no
sentido
que
eles
não
receberam
influência
ou
dirigismo de
um
professor
de Belas
Artes.
Eles
começam a
pintar
por
impulso
e procuram
resolver
as
dificuldades
técnicas
com
meios
próprios,
sendo perdoados
quando
as
suas
figuras
não
são
perfeitamente
desenhadas
ou
quando
aparecem
erros
de
simetria
e
perspectiva.
Porém,
a
experiência
da
prática
ao
longo
dos
anos
pode
proporcionar
ao
pintor
naïf uma
técnica
apurada e
certeira”.
(Andrade, 1978, p. 32)
De
acordo
com
Finkelstein,
fundador
do
Museu
Internacional
de
Arte
Naïf (Mian), no
Rio
de
Janeiro,
criado,
em
1995, num
casarão
do
Bairro
de Cosme
Velho,
com
o
maior
acervo
do
mundo
no
gênero,
reunindo
cerca
de 8
mil
obras
de 130
países,
incluindo
aqueles
em
que
a
arte
naïf é
mais
forte,
como
Iugoslávia, Haiti e
Equador,
e de
todos
os
Estados
brasileiros:
“A
pureza
com
que
os naïfs pintam
mostra
que
eles
não
estão querendo
provar
nada,
apenas
exprimir
o
sentimento
por
meio
do
pincel.
Essa é a
força
da
arte
deles”. (Finkelstein, 2001, p. 12)
O
destaque
da
arte
primitivista,
para
Andrade, reside
justamente
na
total
liberdade
de
criação
do
artista,
que
se
expressa
com
espontaneidade
e
com
inocência:
“Em
geral,
o
artista
naïf oferece uma
visão
interior,
repleta
de
cor,
criando
um
mundo
para
si
próprio.
No Brasil, o
movimento
cresceu a
partir
de 1937
com
Heitor dos
Prazeres,
Cardosinho e Sílvia”. (Andrade, 1978, p. 33)
Heitor dos
Prazeres
(1898-1966) é
um
nome
obrigatório
em
qualquer
retrospectiva
de
arte
naïf
brasileira,
parceiro
de Noel
Rosa
na
célebre
música
Pierrô
apaixonado e premiado na I
Bienal
Internacional
de
São
Paulo,
em
1951,
em
cujo
júri
estava o
crítico
e historiador Herbert Read,
um
dos
nomes
mais
respeitados da historiografia da
arte
mundial.
Em
Bienais
posteriores,
Grauben
Monte
Lima,
Elisa Martins da
Silveira
e José Antonio da Silva estiveram
presentes.
No
exterior,
a pintora Iracema Arditi foi uma das
maiores
responsáveis
pela
divulgação
da
pintura
naïf,
principalmente
pelas várias
exposições
que
organizou na França.
José Bernardo Cardoso Jr., o citado
Cardosinho (1861-1947), admirado
por
Portinari e
com
uma
obra
no
Museu
de
Arte
Moderna
de
Nova
York (Moma);
Chico da Silva (1910-1985),
descendente
de
índios,
menção
honrosa
na
Bienal
de Veneza,
em
1966; o
índio
Amati Trumai,
descoberto
pelos
irmãos
Villas-Boas no
Parque
Indígena
do Xingu, e Antonio Poteiro,
oleiro
de
profissão
e
ceramista
de
talento
que
chegou às
telas
estimulado
pelos
pintores
Siron
Franco
e Cleber Gouveia,
são
nomes
obrigatórios
da
arte
naïf
nacional.
Há
ainda
Maria Auxiliadora, (1935-1974),
doméstica
e
passadeira
descoberta
pelo
especialista
alemão
Ronald Werne na
Praça
da
República;
Lia
Mittarakis (1934-1998),
que
ao
ter
um
de
seus
quadros
como
capa
da
revista
Time
dedicada à
ECO
-1992,
conferência
mundial do
meio
ambiente
realizada no
Rio
de
Janeiro,
foi a
primeira
artista
brasileira
a
ter
uma
obra
reproduzida nessa
revista;
Elza O. S.,
célebre
por
pintar
jovens
vestidas de
noiva,
sonho
pessoal
que
nunca
realizou;
além
de Rosina Becker do Valle
Pereira,
cuja
inspiração
reside no
folclore
brasileiro,
e a ex-secretária
executiva
Helena
Coelho,
artistas
ligados,
desde
1992, às
Bienais
de
Arte
Naïf do Brasil, realizadas
pelo
Sesc de Piracicaba.
Para
Nascimento, “a
descoberta
do
mundo
das
tintas
e dos pincéis acaba se transformando,
para
uma
parcela
significativa
desses
artistas,
em
uma
ótima
oportunidade
de serem aceitos no
seu
grupo
e de se integrarem à
sociedade.
E,
quando
conseguem,
aumenta
a possibilidade de
eles
serem reconhecidos e valorizados,
independentemente
de
suas
origens,
dos
seus
padrões
culturais e dos
seus
bens
materiais”.
(Nascimento, 1998, p. 12)
Aquino avalia
que
“o Brasil é
um
berço
da
pintura
ingênua.
As solicitações
sensoriais
criadas
por
um
país
tropical
e
por
seu
folclore,
ligadas
à
liberdade
gerada
pela
arte
moderna,
fizeram
surgir
nos
campos
e nas
cidades
milhares
de
ingênuos
— a
maioria
sem
qualquer
expressão.
Sobram
poucos,
uns trinta, cujas
qualidades
vão
além
do
simples
colorismo
bruto
e das
incorreções
anatômicas
para
chegarem à
arte
propriamente
dita”.
Aquino (1978, p. 15).
Encontrar
talentos
no
universo
dos chamados
primitivos
é
um
grande
e
fascinante
desafio.
Para
isso,
é
preciso
conhecer
o
maior
número
possível
de
artistas
do Brasil e do
Exterior,
buscando as
características
que
tornam
alguns
desses
pintores
expoentes
do
que
há de artisticamente
melhor,
dando-lhes
destaque
não
como
meros
naïfs,
mas
colocando-os
entre
os
principais
nomes
da
arte
universal,
independente
de
categorias,
estilos
e
nomenclaturas.
Tendo
em
vista a
bibliografia consultada, foi
possível
chegar,
mesmo
com todas as
limitações
que
isso implica, a doze
princípios da
arte naïf:
Os
doze
princípios do
artista naïf
Ter
PREOCUPAÇÃO
ESTÉTICA,
não
mágica
ou
religiosa
2.
Seguir o
GOSTO
INDIVIDUAL,
não o da
coletividade
3.
Obedecer a
ampla
riqueza do
MUNDO
INTERIOR,
não
apenas a
emoção
4.
Ser
um
ARTISTA
PROFISSIONAL,
não
um
diletante
5.
Praticar
INTENSA E SERIAMENTE,
não se
acomodar
6.
Desenvolver
um
ESTILO
PESSOAL,
não uma
imitação
7.
Ter
espírito
VISIONÁRIO,
não conformista
8.
Manter
traços da
ARTE
INSTINTIVA,
não
repetir o
que
já existe
9.
Ser
um
AUTODIDATA,
não
seguir
escolas
10. Buscar sempre uma
PRODUÇÃO MAIS ELABORADA, não estagnar
11. Manter a LIBERDADE,
não sendo, porém, necessariamente, agressivo
12. Manter a fidelidade ao
INDIVIDUALISMO, não aos modismos
A partir das considerações
de Finkelstein (1994 e 2001) e de Silva (1997), é possível verificar que
arte naïf não é arte primitiva. Essa denominação é mais apropriada para
os povos que vivem num tempo histórico preciso, como a arte
pré-histórica, as culturas africanas ou os criadores de arte cristã do
início da Idade Média. Seus criadores, anônimos, vinculam-se a um estado
preciso de evolução cultural e não têm uma PREOCUPAÇÃO ESTÉTICA, mas uma
função social ritual dentro de suas culturas particulares, ligada a
atividades de caça, pesca, coleta, magia ou religião.
Arte Naïf
também não é arte folclórica, do povo, tradicional, rústica ou
provinciana. Estas, segundo o crítico Arnold Hauser, revelam influência
mínima do GOSTO INDIVIDUAL, pois o artista é um porta-voz da comunidade,
um veículo da visão estética do grupo. (Hauser, 1984).
A produção
naïf diferencia-se da arte dos Pintores do Coração Sagrado, denominação
dada pelo marchand e historiador de arte Wilhelm Uhde a Louis Vivin,
Camile Bombois, Louis Séraphine e André Bauchant, grupo de artistas que
se caracterizam por forte emoção e a revelação de um MUNDO INTERIOR
muito específico. (Silva, 1992)
Há ainda
características diferentes entre a arte naïf e a criação de pintores
amadores, pois estes realizam obras parecidas às dos ARTISTAS
PROFISSIONAIS, mas sem qualquer valor estético, pois tentam dominar
técnicas, formas e estilos, adquirindo esse conhecimento a partir dos
mestres. (Finkelstein, 2001)
Diferenças
podem ainda ser encontradas entre a arte naïf e a feita pelos chamados
Pintores de Domingo ou da Semana de Sete Domingos, segundo a denominação
de Anatole Jakovski, que tomam a atividade de pintar como uma ocupação
ocasional, um hobby, não uma ATIVIDADE PRATICADA INTENSA E
SERIAMENTE. (Jakovski, 1956)
Outra
distinção importante é entre arte naïf e a feita por crianças. O sistema
de figuração delas corresponde a estágio específico do desenvolvimento
mental, em que deformações anatômicas ou falhas de perspectiva não são
expressões de um ESTILO PESSOAL, mas expressões do estado imaturo da
consciência emocional.
A produção
naïf é diferenciada da criada por mestres populares da realidade,
denominação dada a Maximilien Gauthier àqueles que reproduzem
artisticamente o mundo que os cerca, porque isso exclui os pintores
sonhadores e desligados da realidade, aqueles considerados VISIONÁRIOS.
(Silva, 1992)
A arte naïf
reúne significativas distinções em relação à feita pelos pintores de
instinto, nome dado por René Huyghe, ou pintores de instinto e do
coração, de acordo com Bernard Dorival, denominações muito usadas na
Europa central, onde o termo ARTE INSTINTIVA também é comum. Ele inclui
não só os naïfs, mas também aos artistas gráficos de antigas
civilizações tecnologicamente menos avançadas. (Silva, idem)
Cabe
acrescentar que a arte naïf não é apenas arte ínsita (inata), termo
usado nas Trienais de Bratislava, na Eslováquia, que valoriza a
importância do conteúdo inconsciente e trata a expressão artística como
um dom uma dádiva dos deuses, excluindo a possibilidade do
AUTODIDATISMO, ou seja, da construção e aquisição de um conhecimento
pelo próprio pintor.
O universo dos
artistas naïf também é distinto daquele da arte imediata, nome dado por
Patrice Walberg a produções artísticas feitas com espontaneidade,
rapidez e sem qualquer tipo de esboço prévio, porque isso exclui a
possibilidade de uma PRODUÇÃO MAIS ELABORADA. (Silva, idem)
Arte Naïf não
é ainda arte bruta, aquela feita por pacientes nas clínicas
psiquiátricas, definida pelo artista plástico Jean Dubuffet como uma
expressão artística selvagem e indomável. As manifestações da Arte
Bruta, por serem uma produção de alienados, mantêm, portanto, pouca
relação com a tradição ou com as tendências da moda.
A denominação arte bruta é
aplicada, nessa linha de raciocínio, apenas a autores marginais, com
problemas mentais ou de reduzida inserção social. Não é o caso dos naïfs,
cujo compromisso maior é com a LIBERDADE de criação, o que não implica
necessariamente em atitudes e resultados estéticos mais agressivos em
termos de postura existencial ou de uso de cores.
Muitos chamam
a arte naïf de primitiva moderna, termo criado por Georges Kasper que
recebe o aval de Bihalji-Merin. Ressalte-se que os naïfs ou primitivos
modernos, ao contrário dos tradicionais primitivos, não são produto de
um estado preciso de evolução cultural e não tem uma função social em
suas culturas particulares, baseando-se sim no INDIVIDUALISMO. (Bihalji-Mérin,
1984)
Em síntese,
embora qualquer definição seja limitadora, ela é necessária para evitar
uma anarquia de nomenclaturas. Em linhas gerais, pode-se considerar
artista naïf (ingênuo, em francês) aquele que se caracteriza por ter a
si mesmo como único padrão. Sem referências culturais e sem dominar um
conhecimento teórico e dogmático sobre sua atividade, produz suas telas
livremente. Há inclusive aqueles que começam a pintar tardiamente por
falta de tempo, pelo desejo inicial de dar vazão à criatividade nos
momentos de lazer ou pelo surgimento da vontade, consciente ou não, de
inscrever o nome na posteridade.
Sem modelos,
os naïfs enfocam os temas mais variados, predominando cenas da vida
cotidiana (rurais ou urbanas), geralmente com minuciosas descrições e
precioso detalhismo. Para Silva, o segredo da arte naïf estaria
justamente nessa distância entre o objetivo almejado pelo artista e a
sua falta de técnica acadêmica para concretizá-lo.
Surge daí um artista
imerso numa jornada única. Ele não continua uma tradição nem rompe com
uma, pois, simplesmente, não as estudou e não se preocupa com as normas
impostas pelas academias e críticos de arte. Seu objetivo é representar
uma imagem ou pensamento sem levar em conta qualquer tipo de barreira
conceitual ou técnica. O resultado, portanto, dependerá de sua
sensibilidade, talento e capacidade de ser, acima de tudo, fiel a si
mesmo.
Desproporções, cores
vibrantes, freqüente ausência de profundidade e criatividade espontânea,
sem a preocupação de seguir padrões, em síntese, passaram a ser então as
características mais constantes desses naïfs, artistas não
intelectualizados que apresentam justamente aquilo que falta à chamada
arte acadêmica, ou seja, simplicidade e espontaneidade individual.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção
Brasil).