por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Jairo Cavalcante: ação gestual

 

            O universo da pintura é uma grande casa com numerosas portas de entrada. A do artista plástico Jairo Cavalcante é a do gesto. Suas figuras, cavalos e Cristos estão marcados pela expressividade. Trata-se de um movimento criativo visceral em que ocorre uma progressiva desconstrução da figura.

            O artista trabalha intensamente as cores e consegue delas efeitos marcantes. A figura se faz presente, mas o grande atrativo do trabalho está na maneira como ocorre uma diluição do referente, num exercício de força plástica inegável. O impacto visual cativa e comove mas cabe descobrir por que isso acontece.

            A provável melhor resposta está na habilidade do artista de encontrar nas telas um caminho visual para as suas inquietações. Quando o assunto pintado é um corpo nu feminino, por exemplo, o principal acaba não sendo a sexualidade ou a sensualidade, mas sim a forma como se dá a ocupação do espaço.

            Os rostos dessas figuras não aparecem. Eles são consumidos pelos fundos, caracterizados por um contínuo andamento poético que desmancha as imagens. Aquilo que permanece são as sugestões de seres mergulhados em cores, imersos numa espécie de caldeira fervente e agitada da qual não conseguem se libertar.

            As pinceladas grossas, o salpicar de tintas e o entendimento da pintura como um ato no qual o fazer é entendido como uma ação gestual torna a arte de Jairo Cavalcante um preciso soco no fígado do observador, que fica paralisado com a contundência das cores e dos enigmas das imagens que visualiza.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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