Abstrações
e índios surealistas de Noel Medrado
Qual é o papel da crítica
de arte? Para alguns, ela deve se fechar em um vocabulário semiótico
incompreensível e numa linguagem iniciada barroca que mais serve para
confundir do que para esclarecer qualquer conceito. Trata-se de um
hermetismo para iniciados que não dá prazer a não ser para quem o
faz fechado em si mesmo e sem o menor interesse em se comunicar.
Para
outros, trata-se de um ofício quase divino de julgar, o que
transforma o crítico num semideus, proprietário de uma falsa
sabedoria, com o poder de decidir e de escolher como se houvesse, no
campo da arte, verdades absolutas ou proposições definitivas sobre a
vida e a arte.
Essas duas
vertentes parecem esquecer que o papel da crítica é muito mais o de
orientar e de dialogar do que de definir padrões. Torna-se essencial
uma ampla formação e um bom repertório para desempenhar a função,
mas não se trata de um papel sobrenatural, marcado pela capacidade de
tomar decisões a serem respeitadas.
O bom crítico,
ciente de estar pleno de dúvidas e vazio de certezas, como ensinou o
mestre Darcy Ribeiro, pode indicar caminhos e mostrar possibilidades
de raciocínio e de composição. Com a lanterna da boa vontade e da
doação, o crítico penetra na imensa floresta da produção
contemporânea em busca de valores e oportunidades de diálogo e de
realizações plásticas.
É nesse
contexto de entender a atividade crítica como um diálogo entre
aquele que faz a arte e o que utiliza a sua energia e seu tempo no
esforço de contemplá-la, desvendá-la e interpretá-la, que a obra
de Noel Medrado suscita diversas questões. Elas podem ser reunidas em
dois blocos, ambos de interesse e dignos de análise acurada.
De um
lado, temos a produção de índios num estilo próximo surrealista,
visível principalmente na forma como os cocares e os cabelos se
articulam em pontes e arcos imaginários em que a cor tem um papel
fundamental. O virtuosismo oferece aqui uma ótima oportunidade de
exploração do espaço da tela.
De fato,
um caminho nessa jornada seria tomar a cor como mote e desenvolvê-la
o máximo possível. Nesse processo, o rosto dos índios, resto de uma
figuração vinculada ao fazer artístico do retrato, poderia
progressivamente desaparecer. O movimento dessas cores, com as
tonalidades próprias das diversas etnias, pode oferecer uma resposta
plástica plena de significado e pronta a ocupar um espaço no
competitivo mercado atual.
O
movimento dos cocares, que pode ocupar a tela tanto na vertical como
na horizontal, oferece um universo rico de movimento, capaz de gerar
as mais variadas percepções. Há desde a mais ingênua – a da cor
em si mesma – até uma mais rebuscada que verá as composições e
ondulações como elementos centrais.
Outra
vertente é a de quadros abstratos em que as cores e as texturas
ganham um papel fundamental. Trata-se de um caminho em que é necessário
ficar atento para não cair no mero decorativo e na antiga equação
de fazer obras que combinem com o sofá ao invés de estimular o público
a comprar um sofá que faça jus ao quadro.
Lidar com
o abstrato exige grande cuidado, coragem e determinação para
mergulhar numa pesquisa em que a qualidade estética seja colocada
sempre em primeiro lugar. Para isso, a experimentação constante é
um elemento primordial, um desafio presente em cada novo trabalho.
Seja então
nos índios de características pictóricas surrealistas ou em suas
abstrações, Noel Medrado apresenta uma gama de ricas possibilidades
e caminhos. Explorar um deles até a exaustão é a grande incógnita
que o futuro lhe apresenta para as próximas braçadas no mar de
marolas e ondas que a arte oferece.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos de
Artes (AICA – Seção Brasil).