por Oscar D'Ambrosio


 

 


Abstrações e índios surealistas de Noel Medrado

 

            Qual é o papel da crítica de arte? Para alguns, ela deve se fechar em um vocabulário semiótico incompreensível e numa linguagem iniciada barroca que mais serve para confundir do que para esclarecer qualquer conceito. Trata-se de um hermetismo para iniciados que não dá prazer a não ser para quem o faz fechado em si mesmo e sem o menor interesse em se comunicar.

            Para outros, trata-se de um ofício quase divino de julgar, o que transforma o crítico num semideus, proprietário de uma falsa sabedoria, com o poder de decidir e de escolher como se houvesse, no campo da arte, verdades absolutas ou proposições definitivas sobre a vida e a arte.

            Essas duas vertentes parecem esquecer que o papel da crítica é muito mais o de orientar e de dialogar do que de definir padrões. Torna-se essencial uma ampla formação e um bom repertório para desempenhar a função, mas não se trata de um papel sobrenatural, marcado pela capacidade de tomar decisões a serem respeitadas.

            O bom crítico, ciente de estar pleno de dúvidas e vazio de certezas, como ensinou o mestre Darcy Ribeiro, pode indicar caminhos e mostrar possibilidades de raciocínio e de composição. Com a lanterna da boa vontade e da doação, o crítico penetra na imensa floresta da produção contemporânea em busca de valores e oportunidades de diálogo e de realizações plásticas.

            É nesse contexto de entender a atividade crítica como um diálogo entre aquele que faz a arte e o que utiliza a sua energia e seu tempo no esforço de contemplá-la, desvendá-la e interpretá-la, que a obra de Noel Medrado suscita diversas questões. Elas podem ser reunidas em dois blocos, ambos de interesse e dignos de análise acurada.

            De um lado, temos a produção de índios num estilo próximo surrealista, visível principalmente na forma como os cocares e os cabelos se articulam em pontes e arcos imaginários em que a cor tem um papel fundamental. O virtuosismo oferece aqui uma ótima oportunidade de exploração do espaço da tela.

            De fato, um caminho nessa jornada seria tomar a cor como mote e desenvolvê-la o máximo possível. Nesse processo, o rosto dos índios, resto de uma figuração vinculada ao fazer artístico do retrato, poderia progressivamente desaparecer. O movimento dessas cores, com as tonalidades próprias das diversas etnias, pode oferecer uma resposta plástica plena de significado e pronta a ocupar um espaço no competitivo mercado atual.

            O movimento dos cocares, que pode ocupar a tela tanto na vertical como na horizontal, oferece um universo rico de movimento, capaz de gerar as mais variadas percepções. Há desde a mais ingênua – a da cor em si mesma – até uma mais rebuscada que verá as composições e ondulações como elementos centrais.

            Outra vertente é a de quadros abstratos em que as cores e as texturas ganham um papel fundamental. Trata-se de um caminho em que é necessário ficar atento para não cair no mero decorativo e na antiga equação de fazer obras que combinem com o sofá ao invés de estimular o público a comprar um sofá que faça jus ao quadro.

            Lidar com o abstrato exige grande cuidado, coragem e determinação para mergulhar numa pesquisa em que a qualidade estética seja colocada sempre em primeiro lugar. Para isso, a experimentação constante é um elemento primordial, um desafio presente em cada novo trabalho.

            Seja então nos índios de características pictóricas surrealistas ou em suas abstrações, Noel Medrado apresenta uma gama de ricas possibilidades e caminhos. Explorar um deles até a exaustão é a grande incógnita que o futuro lhe apresenta para as próximas braçadas no mar de marolas e ondas que a arte oferece.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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