por Oscar D'Ambrosio


 

 


A beleza do realismo contemporâneo

 

            Qualquer tipo de arte é uma forma de pensamento. O modo como se utilizam os pincéis e os mais diversos materiais, no caso da escultura, revela um modo de conceber o mundo. A beleza não está no reconhecimento daquilo que se vê na tela como algo real, seja um objeto, uma pessoa ou uma paisagem, mas na capacidade técnica que um criador revela na construção daquele objeto artístico.

Ao contrário do que geralmente se pensa, porém, o domínio da técnica exigido pela arte realista contemporânea, não mata o sentimento, mas o liberta. Partir de um objeto ou de uma pessoa do mundo real e atingir, pelo domínio técnico, expressões de olhares ou jogos de luz que revelam aspectos inusitados do modelo é o grande desafio a ser enfrentado.

No caso específico da arte de Maurício Takiguthi, Canato e Renato Blaschi, a arte que apresentam revela uma expressão de conceitos e uma percepção muito peculiar daquilo que se chama realidade. A técnica está a serviço do artista para que ele expresse plenamente a sua visão de mundo, tornando-se um instrumento de prática incessante que exige intensa disciplina.

A forma como eles trabalham inclui a habilidade técnica e o conhecimento dos materiais. Essa destreza, no entanto, surge aliada a uma concepção bem definida: a de que os grandes artistas não se limitam a reproduzir modelos, mas partem deles para apropriar-se daquilo que vêem, colocando em seu trabalho a sua subjetividade.

Os artistas constroem o seu trabalho dentro de uma concepção profundamente humanista, no sentido de entender cada ação pictórica ou escultórica como uma busca de um conhecimento cada vez maior. Isso significa pesquisar, estudar e aprender com os mestres do passado, vendo neles uma maneira de encontrar o próprio caminho.

Nesse sentido, não há receitas ou idéias prontas a serem aprendidas ou ensinadas, mas um pensamento consciente e aprimorado pela prática de que conhecer a técnica e desenvolver a capacidade de trabalhar com linhas, planos, massas, espaço, movimento e cor é um exercício constante que leva a uma maior capacidade de questionar o que se vê.

O aprendizado é o resultado de esforço e, nesse aspecto, para os artistas realistas, copiar os mestres e estuda-los é o melhor caminho para encontrar a própria trilha. Trata-se de um exercício perene de desmontar e desconstruir os mestres do passado para atingir o domínio técnico e se permitir a capacidade de arriscar, dando os próprios passos e encontrando as próprias soluções, seja de material, técnica ou expressão poética.

A busca do aperfeiçoamento constante é o principal exercício dos três artistas em sua capacidade de pensar e executar cada trabalho. Seu estilo, em parte influenciado pela escola realista norte-americana, mas também pelos clássicos e neoclássicos, vem justamente da construção de uma poética refinada.

Cada um deles expressa pela técnica a sua intuição e a sua capacidade de partir do real para a construção de uma obra de arte que, embora possa ser chamada de realista contemporânea, é, acima de tudo, um processo individual de aprimoramento em que cada um segue o seu caminho, partindo do passado para, por meio do conhecimento da técnica e dos materiais, atingir uma gradual liberdade de expressão, onde a maior beleza não está tanto na imagem realista retratada na tela ou na escultura, mas na maneira como se atingiu tal resultado e o caminho que levou a isso.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

 

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