A
beleza do realismo contemporâneo
Qualquer tipo de arte é uma forma de pensamento. O modo
como se utilizam os pincéis e os mais diversos materiais, no caso
da escultura, revela um modo de conceber o mundo. A beleza não
está no reconhecimento daquilo que se vê na tela como algo real,
seja um objeto, uma pessoa ou uma paisagem, mas na capacidade técnica
que um criador revela na construção daquele objeto artístico.
Ao
contrário do que geralmente se pensa, porém, o domínio da técnica
exigido pela arte realista contemporânea, não mata o sentimento,
mas o liberta. Partir de um objeto ou de uma pessoa do mundo real
e atingir, pelo domínio técnico, expressões de olhares ou jogos
de luz que revelam aspectos inusitados do modelo é o grande
desafio a ser enfrentado.
No
caso específico da arte de Maurício Takiguthi, Canato e Renato
Blaschi, a arte que apresentam revela uma expressão de conceitos
e uma percepção muito peculiar daquilo que se chama realidade. A
técnica está a serviço do artista para que ele expresse
plenamente a sua visão de mundo, tornando-se um instrumento de prática
incessante que exige intensa disciplina.
A
forma como eles trabalham inclui a habilidade técnica e o
conhecimento dos materiais. Essa destreza, no entanto, surge
aliada a uma concepção bem definida: a de que os grandes
artistas não se limitam a reproduzir modelos, mas partem deles
para apropriar-se daquilo que vêem, colocando em seu trabalho a
sua subjetividade.
Os
artistas constroem o seu trabalho dentro de uma concepção
profundamente humanista, no sentido de entender cada ação pictórica
ou escultórica como uma busca de um conhecimento cada vez maior.
Isso significa pesquisar, estudar e aprender com os mestres do
passado, vendo neles uma maneira de encontrar o próprio caminho.
Nesse
sentido, não há receitas ou idéias prontas a serem aprendidas
ou ensinadas, mas um pensamento consciente e aprimorado pela prática
de que conhecer a técnica e desenvolver a capacidade de trabalhar
com linhas, planos, massas, espaço, movimento e cor é um exercício
constante que leva a uma maior capacidade de questionar o que se vê.
O
aprendizado é o resultado de esforço e, nesse aspecto, para os
artistas realistas, copiar os mestres e estuda-los é o melhor
caminho para encontrar a própria trilha. Trata-se de um exercício
perene de desmontar e desconstruir os mestres do passado para
atingir o domínio técnico e se permitir a capacidade de
arriscar, dando os próprios passos e encontrando as próprias
soluções, seja de material, técnica ou expressão poética.
A
busca do aperfeiçoamento constante é o principal exercício dos
três artistas em sua capacidade de pensar e executar cada
trabalho. Seu estilo, em parte influenciado pela escola realista
norte-americana, mas também pelos clássicos e neoclássicos, vem
justamente da construção de uma poética refinada.
Cada
um deles expressa pela técnica a sua intuição e a sua
capacidade de partir do real para a construção de uma obra de
arte que, embora possa ser chamada de realista contemporânea, é,
acima de tudo, um processo individual de aprimoramento em que cada
um segue o seu caminho, partindo do passado para, por meio do
conhecimento da técnica e dos materiais, atingir uma gradual
liberdade de expressão, onde a maior beleza não está tanto na
imagem realista retratada na tela ou na escultura, mas na maneira
como se atingiu tal resultado e o caminho que levou a isso.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).