por Oscar D'Ambrosio


 

 


A arte de ver de Rubens Gerchman

 

Há uma diferença de raciocínio visual entre a fotografia e o desenho. Na primeira, perante toda a realidade, quem está com a câmera na mão precisa escolher o que vai focar. Isso significa um exercício de subtração, ou seja, seleciona-se aquilo que a pessoa não quer que apareça no visor.

            Já no desenho, perante uma folha de papel em branco ou de uma outra cor, o exercício é de soma. É preciso decidir aquilo que se deseja colocar ali – não o que se vai retirar, num processo em que cada movimento constitui um retrato de uma alma, numa manifestação autêntica daquilo que se expressa, de modo mais ou menos inconsciente.

            É exatamente o diálogo entre essas duas formas de pensar que pode ser encontrado em Eros e Tânatos: diário de uma viagem (J J. Carol Editora, 2007), livro de Rubens Gerchman, falecido em 29 de janeiro de 2008. A publicação constitui uma jornada visual pelo percurso do artista plástico em duas visitas a Índia, em 2000 e 2001.

A partir do material fotográfico então produzido, realizou, em 2007, desenhos com lápis de cor e pinturas a pastel seco revisitando o seu mergulho na cultura indiana. O resultado ultrapassa a questão da beleza plástica, permitindo penetrar no campo do simbólico e da pluraridade interpretativa que o diálogo multicultural oferece. 

            Cabe lembrar que a Índia é o segundo país mais populoso do mundo, perdendo apenas para China. Com mais de um bilhão de habitantes, reconhece 23 línguas oficiais, numa diversidade que se espelha também na existência de quatro grandes religiões: o hinduísmo, o budismo, o jainismo e o siquismo.

            A experiência de Gerchman esteve marcada por quatro eventos principais: a festa Khumba Mela, a presença do astrofísico Stephen Hawking naquele país, a eclipse do sol e um terremoto de grandes proporções que atingiu a Ásia. Esses elementos, de diversas formas, mais ou menos explícitas, se fazem presentes ao longo das imagens reunidas na publicação.

Conviver com um dos principais festivais religiosos locais, o Khumba Mela (khumb = pote e mela = festival), maior evento do hinduísmo, que ocorre a quatro anos em cidades alternadas (Allahabad, Ujjain, Nasik e Haridwar), constitui uma significativa experiência de vida.

A origem do evento está ligada a uma lenda na qual deuses e demônios entraram em guerra por causa de um pote que continha o néctar da imortalidade. Algumas gotas do néctar teriam caído justamente nos municípios onde o festival, um acontecimento nacional, acontece.

            Cada ciclo de doze anos inclui o Maha Kumbha Mela (maha = maior) em Allahabad, onde milhões de devotos hindus se reúnem para se banhar no Sangam, local de encontro dos rios sagrados Ganges, Yamuna e Saraswati para se purificar, naquele que é o maior festival religioso do mundo.

            Essa experiência repleta de espiritualidade encontra a sua completude na visita que o artista fez aos templos de Khajuraho. Entre 950 y 1050, foram erguidos 85 deles, divididos em três grupos (oeste, sul e leste), mas apenas 22 sobreviveram ao tempo. Espectros do passado erguidos sobre enormes plataformas entre plantações, despertam interesse arquitetônico, pela qualidade da construção, e artístico, pelo número e qualidade de esculturas e relevos, boa parte de caráter erótico e sexual.

A arte indiana, com tradição na escultura de deuses e deusas, guerreiros e músicos, animais reais e mitológicos, apresenta, ao tratar das relações carnais, imagens sem nenhum pudor de diversas posições sexuais, seguindo os ensinamentos e visões do amor do Kama Sutra, antigo texto indiano sobre o comportamento sexual humano, considerado o trabalho definitivo sobre o amor na literatura sânscrita.

A tradição diz que o autor desse texto, Vatsyayana, foi um estudante celibatário que viveu em Pataliputra, um importante centro de aprendizagem. Estima-se que ele tenha nascido no início do século IV, sendo sua obra um processo que reúne o Kama, a literatura do desejo, e o Sutra, discurso baseado numa série de aforismos.

No templo, as imagens desfilam à frente do observador nas mais variadas poses. Ao levar esse universo para o papel, é intensificado o uso de cores quentes, característico do trabalho de Gerchman, num universo plástico em que a composição das imagens e a forma de distribuição das gamas de cor fica em primeiro lugar. Assim, o original da foto cede espaço plástico para os recursos técnicos do artista carioca.

            As explicações sobre os motivos da construção dos templos na distante cidade de Khajuraho, capital da dinastia Candela, cujo governo durou cinco séculos antes de ser derrotado pelos muçulmanos, e sobre o significado das esculturas eróticas permanecem misteriosas, sendo comuns especulações teóricas sobre uma finalidade didática do Kama Sutra em pedra, além de ligações desse conjunto de esculturas com o tantrismo, filosofia comportamental hindu de características matriarcais, sensoriais e desrepressoras que busca o desenvolvimento integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental e espiritual.

O fascinante é que o templo une elementos decorativos com representações eróticas em grande gama de posições e possibilidades. São encontradas desde posições dignas de atletas de ginástica olímpica a movimentos inusitados e mesmo engraçados.

As paredes dos templos, cobertas de esculturas em cada centímetro, apresentam uma intensa beleza. A leitura que Gerchman faz apresenta o seu próprio estilo e, como não poderia deixar de ser, privilegia o beijo, a união dos corpos e a relação entre as cores.

Se a forma de composição dos templos segue uma lógica interna, marcada por uma narrativa, talvez com cunho educativo, no sentido de até substituir o texto escrito, do mesmo modo que as igrejas medievais dispunham suas imagens para fascinar e educar seus fiéis, o trabalho de Gerchman apresenta uma bem definida lógica interna no sentido de ressaltar emoções.

            Mas o livro não se resume a esse lado mais erótico e sensual. Talvez as imagens mais impressionantes são os auto-retratos. Talvez isso ocorra porque eles estão plenos de auto-conhecimento. E isso só a maturidade traz. A maneira como é trabalhada a própria imagem revela um pensamento sobre si mesmo.

            O fato é que, nas artes sobre papel, ao contrário do que pode ocorrer com outras técnicas, é quase impossível mentir. Cada traço é uma cicatriz da alma, uma vivência que ganha o espaço e desnuda quem a pessoa é e como ela trabalha as influências pessoais e do ambiente que recebe.     

            As imagens de cenas urbanas e aquelas em que, num exercício de metalinguagem, vemos o próprio fotógrafo utilizando a sua máquina, reforçam o valor do livro como um autêntico caderno de viagens. A graça do viajar está exatamente no que se traz de volta, seja em lembranças, fotografias ou num trabalho plástico que funciona pela adição no papel em branco de impressões de viagem e de manifestações da alma em constante mutação que habitava o corpo de Rubens Gerchman.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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