Sidney Biondani
A arte da luz
Entre os
muitos
recursos à
disposição dos
artistas
plásticos, a
luz é
um dos
principais e,
para
ser dominada,
ou
pelo
menos
entendida, exige
muita
prática e
estudo. Trata-se de uma
jornada
que
nunca termina e
que,
pelo
contrário, é reiniciada
em
cada
desafio
que se enfrenta.
Oriundo da
publicidade,
onde começou
ainda
adolescente e desempenhou as
mais diversas
funções, Sidney Biondani tem na
luz
sua
matéria-prima
essencial.
Suas distintas
séries desenvolvem
assuntos,
mas tem na
forma de
direcionar o
olhar do
observador uma de
suas
questões
primordiais.
Nesse
sentido,
seu
primeiro
trabalho
criado
como
conjunto é o de
imensos
caminhões
em
estradas.
Eles surgem
geralmente
como se estivessem deformados
pelo
uso de uma
lente
grande
angular. Os
mais
significativos aparecem
em
meio a
névoas,
como flutuando,
mas
sem
perder o
seu
volume. Tornam-se
seres misteriosos a
ganhar o
espaço da
tela.
Na
série
em
que pintou
botecos
imaginários, as
cenas de
interiores
são realçadas numa
espécie de
teatro
humano. Há uma
narrativa
em
que estão os
sedutores, a seduzida, o
beberrão, o
contador de
casos, uma
plêiade de
personagens
que freqüenta os
bares, numa
tentativa de
captar as
dimensões íntimas do
ser
humano.
Esse
mesmo
clima se mantém na
série dos
bares
reais
paulistas.
Agora o
desafio é, na
maior
parte das
obras,
mostrar
fachadas de
locais
que deixaram de
existir
ou
que
ainda tentam
manter a
tradição.
Fotografias e
memórias próprias e alheias constituem o
ponto de
partida de uma
pintura
que se utiliza
muito da
luz.
Os
bares
são mostrados de
fora e as
pessoas aparecem
como
sombras
ou
sugestões. Integram o
ambiente,
mas
não
são identificáveis. Os
freqüentadores
são universalizados. Os
espaços aparecem
com uma
iluminação
toda
especial.
Ela
chama a
atenção
sobre o
local desejado,
mas, ao
mesmo
tempo,
cria
um
esmaecimento, estabelecendo
um
universo de interrogações e de
sugestões
em
que
nunca se sabe se o
horário das
cenas é nas
altas
horas da
noite
ou
nos
primeiros
momentos da
madrugada.
Existe ainda uma
série de personagens circenses que são, em última análise, uma continuação
lúdica do que foi desenvolvido nos bares. O mágico, as trapezistas e os
numerosos artistas de um mundo marcado pela criatividade, imaginação e
fingimento manifestam uma intensa ironia em relação à vida.
Há uma
crítica às
aparências e uma
forma de
bem humorada de
desvendar as
mazelas humanas. Predomina,
por
meio do
exagero, numa
técnica
que
toma
muito do
expressionismo
europeu
não na
palheta alemã,
mas na
maneira de se
valer de
deformações e a instauração de uma
realidade
pictórica
em
que a
verdade das
tintas supera
qualquer
forma de
falsidade
humana.
O conjunto dos
trabalhos de Sidney Biondani – que inclui ainda aquarelas aprazíveis de
paisagens brasileiras, estudos nessa mesma técnica de garrafas e
naturezas-mortas e a escrita de próprio punho, em italiano arcaico, de
maneira sobreposta, e com caligrafias variadas, dos textos do Inferno,
Purgatório e Paraíso da Divina Comédia, de Dante Alighieri – revela
sensibilidade, inteligência, perseverança e terna vontade de se aprimorar,
qualidades cada vez mais raras no cenário da pintura contemporânea.
Oscar D’Ambrosio, jornalista
e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a
Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).