por Oscar D'Ambrosio


 

 


Sidney Biondani

 

            A arte da luz

 

            Entre os muitos recursos à disposição dos artistas plásticos, a luz é um dos principais e, para ser dominada, ou pelo menos entendida, exige muita prática e estudo. Trata-se de uma jornada que nunca termina e que, pelo contrário, é reiniciada em cada desafio que se enfrenta.

            Oriundo da publicidade, onde começou ainda adolescente e desempenhou as mais diversas funções, Sidney Biondani tem na luz sua matéria-prima essencial. Suas distintas séries desenvolvem assuntos, mas tem na forma de direcionar o olhar do observador uma de suas questões primordiais.

            Nesse sentido, seu primeiro trabalho criado como conjunto é o de imensos caminhões em estradas. Eles surgem geralmente como se estivessem deformados pelo uso de uma lente grande angular. Os mais significativos aparecem em meio a névoas, como flutuando, mas sem perder o seu volume. Tornam-se seres misteriosos a ganhar o espaço da tela.

            Na série em que pintou botecos imaginários, as cenas de interiores são realçadas numa espécie de teatro humano. Há uma narrativa em que estão os sedutores, a seduzida, o beberrão, o contador de casos, uma plêiade de personagens que freqüenta os bares, numa tentativa de captar as dimensões íntimas do ser humano.

            Esse mesmo clima se mantém na série dos bares reais paulistas. Agora o desafio é, na maior parte das obras, mostrar fachadas de locais que deixaram de existir ou que ainda tentam manter a tradição. Fotografias e memórias próprias e alheias constituem o ponto de partida de uma pintura que se utiliza muito da luz.

            Os bares são mostrados de fora e as pessoas aparecem como sombras ou sugestões. Integram o ambiente, mas não são identificáveis. Os freqüentadores são universalizados. Os espaços aparecem com uma iluminação toda especial. Ela chama a atenção sobre o local desejado, mas, ao mesmo tempo, cria um esmaecimento, estabelecendo um universo de interrogações e de sugestões em que nunca se sabe se o horário das cenas é nas altas horas da noite ou nos primeiros momentos da madrugada.

            Existe ainda uma série de personagens circenses que são, em última análise, uma continuação lúdica do que foi desenvolvido nos bares. O mágico, as trapezistas e os numerosos artistas  de um mundo marcado pela criatividade, imaginação e fingimento manifestam uma intensa ironia em relação à vida.

Há uma crítica às aparências e uma forma de bem humorada de desvendar as mazelas humanas. Predomina, por meio do exagero, numa técnica que toma muito do expressionismo europeu não na palheta alemã, mas na maneira de se valer de deformações e a instauração de uma realidade pictórica em que a verdade das tintas supera qualquer forma de falsidade humana.

            O conjunto dos trabalhos de Sidney Biondani – que inclui ainda aquarelas aprazíveis de paisagens brasileiras, estudos nessa mesma técnica de garrafas e naturezas-mortas e a escrita de próprio punho, em italiano arcaico, de maneira sobreposta, e com caligrafias variadas, dos textos do Inferno, Purgatório e Paraíso da Divina Comédia, de Dante Alighieri –  revela sensibilidade, inteligência, perseverança e terna vontade de se aprimorar, qualidades cada vez mais raras no cenário da pintura contemporânea.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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