por Oscar D'Ambrosio


 

 


Waldomiro de Deus

 

Antena parabólica

 

O termo autodidata contemporâneo talvez seja o melhor para definir a arte de Waldomiro de Deus, cujo trabalho apresenta, como elementos unificadores, as cores vivas, a imaginação, a estilização e um poder de síntese muito peculiar. Ela brota do inconsciente coletivo e conquista pela maneira de articular as composições visuais.

Com o passar dos anos, com o desenvolvimento da globalização, via rádio, televisão e internet, sua arte passou por um processo de constante renovação.  O autodidatismo passou a conviver e assimilar influências eruditas. Ocorreu, assim, a conservação de características próprias, como a capacidade de articular sabedoria popular com imaginação individual e coletiva, com referências à mídia.

            A forma pela qual artistas não-eruditos, como Waldomiro, realizam a convivência entre temas populares, inspirados tanto no meio rural como no urbano, e a rejeição das regras convencionais da pintura pode ser considerada a captação do espírito de uma época bastante tumultuada como a nossa.

Quando Waldomiro discute sua preocupação com o  meio ambiente e com cenas bucólicas, de fato raciocina sobre o estado do mundo e como a vida contemporânea está cada vez mais marcada pela perda de valores essências à vida, como a convivência com as árvores e pássaros e com a família.

            Nascido no interior da Bahia, o artista chegou como retirante em São Paulo, freqüentou a movimentada Rua Augusta dos anos 60, viajou para a Europa, passando a acreditar em Deus em Israel e chegou a morar numa casa enorme com um caixão mortuário em Osasco. Hoje, divide seu tempo entre Goiânia e São Paulo e desenvolve um trabalho bastante peculiar na cena plástica brasileira.

            As cores, temas, simbologia e religiosidade encantam parceiros de profissão e críticos de arte nacionais e do exterior. O cotidiano, em última análise, sempre foi a sua grande matéria-prima, embora também tenha levado para a tela planetas imaginários e imagens absolutamente originais, como fictícios astronautas brasileiros na Lua, nos anos 1960.

            A versatilidade de Waldomiro surpreende. Começou retratando o folclore e passou por foguetes, críticas sociais, planetas, peixes e flores. Há também imagens sensuais e erotismo, assim como pureza e encantamento de namorados. Tudo é motivo para ele exibir uma técnica que aprendeu sozinho, sem nunca ter pisado numa escola de qualquer espécie.

            O trabalho incomoda pela verdade que coloca. Diversificado em termos de temática e rico em soluções visuais para os problemas que a pintura coloca, torna-se um caminho a ser seriamente discutido como alternativa as tendências que dominam a arte brasileira, geralmente vindas do exterior.  

            Waldomiro vai de uma Nossa Senhora de minissaia a uma alegórica travessia do milênio com corpos e rostos morenos. A amplidão de seu espectro imaginativo não arrefece com o passar dos anos, mas se multiplica dentro de uma lógica na qual é necessário sempre criar, perscrutar e interrogar criticamente o mundo circundante.

            O artista oferece, em cada nova série que realiza, uma faceta sempre plena de interrogações e questionamentos. Isso inclui tanto assuntos sociais como ambientais e mesmo existenciais, pois, autodidata contemporâneo que é, Waldomiro de Deus se desdobra para se manter atual – e consegue essa tarefa por nunca se conformar. Mantém, a cada novo trabalho, como uma autêntica antena parabólica, o poder de receber mensagens do mundo, absorvendo-as e irradiando-as, preservando intactos a inquietação e o desejo de sobreviver e vencer pela arte.

 

    Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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