por Oscar D'Ambrosio


 

 


A alquimia da gravura de Mauricio Parra

           

            Entre as numerosas formas de se expressar artisticamente, a gravura ganha um lugar especial talvez por ser um universo muito próximo da alquimia. Seus caminhos envolvem detalhes e mistérios que somente são desvendados pelo iniciante com a prática ferrenha e praticamente religiosa, no sentido de religar o indivíduo com algo que ele não consegue – e nunca poderá, de fato – dominar completamente.

            Mauricio Parra propicia neste catálogo uma jornada pelo seu percurso na gravura. Trata-se apenas de uma amostra de um trabalho persistente, que se inicia com um martelo, ferramenta que também comparece em sua pintura, e tem como manifestação mais recente uma lâmpada, seguramente a iluminar as novas pesquisas técnicas e temáticas.

            A discussão que se estabelece não é meramente a do objeto representado, mas sim a de como ele atinge o que deseja. Por isso, é possível encontrar a diversidade da matriz de uma placa de cobre, provas de estado – etapas da imagem antes de sua configuração final – e diversas técnicas de feitura e de impressão.

            Água-forte, água-tinta e ponta seca são alguns dos recursos utilizados, assim como várias formas de intervenção, seja com pó de café ou aquarela. O que move o gravurista é a capacidade de pesquisar sempre e de não se contentar com cada resultado obtido.

            Assim, chaleiras, martelos, cadeiras, guarda-chuvas, alicates, açucareiros tesouras, postes de luz com suas fiações e lâmpadas deixam de ser objetos para adquirir a condição de imagens artísticas sobre papel. O uso de recursos como folhas de prata e de ouro e a caligrafia enriquecem o ofício do gravurista, sem contar a possibilidade de variar os tipos de papel na impressão.

            A placa de cobre, a incisão direta, os banhos de ácido, o entintar da placa e a prensa que transfere a imagem para o papel enriquecem essa magia alquímica. A parceria do impressor, no presente caso, o especialista Roberto Grassmann, surge como outro diferenciador, ao qual o artista tem que estar muito atento.

Síntese de operações sofisticadas, a gravura exige do artista uma mescla de inventor, engenheiro e alquimista, respectivamente, pela criatividade, rigor e mistérios que envolve. O grande mérito de Mauricio Parra está justamente na combinação desses três caminhos.

            Com seu olhar arguto, consegue desenvolver na matriz uma linguagem visual que lhe exige amplo conhecimento técnico, utilizado ainda nas intervenções. O aspecto alquímico está na forma como o artista se aproxima da máxima vinculada à pedra filosofal alquímica, ou seja, o célebre Vitriol  “visita interiorem terrae rectificandoque invenies occultum lapidem”, ou seja, “Visita o Interior da Terra e Retificando (Transformando) Encontrarás a Pedra Oculta”.

Isso ocorre a cada nova obra, num processo em que a gravação de novas chapas será, certamente, uma descoberta cada vez maior de si mesmo e da sua relação com os objetos e as pessoas do mundo. Do cotidiano martelo, Mauricio Parra extrai a simbólica luz e, daqui por diante, a capacidade de mergulhar em seu visível talento será o seu limite.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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