Marcel
Marcel Fernandes - a emoção à flor
da tela. ©
Por Alexandros Papadopoulos Evremidis* Jovem,
mal saído da adolescência - essa encantadora idade do dolor -, traz em si
toda a enxurrada de inquietações, de dúvidas, de turbulências e paixões
avassaladoras, próprias da travessia entre o inacabado e o pleno ser. Não
bastasse, parece ser ele dotado de uma personalidade exacerbadamente sensível,
em que as emoções afloram e explodem a toda hora, exigindo a sua mais
peremptória expressão. Poderia Marcel tentar guardá-las para si, remoer e
enrusti-las, e certamente entraria em parafuso e perder-se-ia em algum buraco
negro, ou sofreria um trágico colapso. Optou por, seguindo os procedimentos
urgentes e necessários da pesquisa e do estudo, a par com a introspecção e
as conseqüentes experimentação e exposição, abrir as comportas e
canalizar toda a energia, a vitalidade, o protesto e a dor sufocantes, para
as amplas e benfazejas vazantes da arte pictórica - "cada pintura
realizada representa um grito a menos e uma alegria a mais para
compartilhar", depõe Marcel. Não
demorou muito para Marcel se confirmar artista e, melhor, sem nenhum esforço,
embora com bastante e agradável surpresa, disso nos convencer. Falo em
surpresa, porque, de tanto ouvir, terminamos cerebrolavados por acreditar que
os jovens "de hoje em dia" são todos alienados e que suas míopes
aspirações não vão além do prosaico "money no bolso" e diversão.
(Parece até que esses críticos, refugiados em escusos álibis de erudição,
nunca foram jovens, não a seu tempo). Será? Não será! E prova cabal
disso, entre tantos outros, e tanto quanto talentosos, jovens, é Marcel - um
ser absolutamente ciente e consciente e daí também plenamente comprometido
com o seu, e o alheio, "momentum". Ao longo da história da arte,
conhecemos livros e catálogos que catalogam e grosseiramente classificam os
artistas como artistas filósofos, artistas moralistas, estetas, críticos da
sociedade. Esquecem-se os que assim procedem que o artista é, e o é
exatamente por ser artista, um ser pleno e ecumênico, que tanto pode nos
transmitir conhecimento sobre a metafísica de um grão de areia e da
borboleta de Chuang-Tsu, como sobre a curvatura das nádegas da Calipígia ou
a largura da vagina da Pândemos. Voltando
à vaca fria da comunicação sob cuja égide, segundo esses retóricos,
estamos vivendo neste momento, mas que nós cremos ter estado ela presente na
composição dos primitivos coacervados e sido motor propulsor que os levou
à complexidade do estado celular que por sua vez culminou no molecular e orgânico,
podemos tranqüilamente dizer que Marcel nos quer comunicar isto e aquilo e
aqueloutro. Basta observar atentamente e com aberta mente, as várias
vertentes da sua incipiente produção artística. Na obra "Caos",
por exemplo, que subliminarmente nos remete à pandemoníaca destruição das
torres, e também na "Realidade" e em mais algumas outras da série,
ele denuncia violentamente a violência - seja ela a institucional, a política,
a social, a do fundamentalismo religioso (ironicamente "religião"
significa religar os homens a Deus - não seria mais decente "religá-los"
entre si?), a do indivíduo, ou ainda a de um acidente automobilístico.
Todas deixam marcas profundas e indeléveis, nos dele e nos nossos físico e
psiquismo, e estão patentes e testemunhas, ali, em suas telas. Marcel
consegue isso deliberadamente tumultuando e conturbando a dinâmica das
linhas e dos planos, fragmentando e embaralhando-os, e carregando nas cores
sombrias, aqui e acolá pontuando o calor da fogueira dos infernos alimentada
com sangue. São indubitavelmente criações de grande impacto emocional e
estético, mas ele não se dá por contente, quer ir além, nos cutucar e nos
espetar, nos agredir mesmo, para por meio de uma violência amorosamente
sutil nos conduzir à premente reflexão sobre seu significado e sentido. Em
outra seqüência, como a do masculino e do feminino, servindo-se do papier
collé de um papelão canelado (um tremendo de um achado e provavelmente uma
reminiscência afetiva do classicismo iônico) e dos tons verdes e azuis,
Marcel, por meio da textura e da luz, reconfigura os sexos conferindo-lhes
aspectos de seres de dimensões extravagantes e originais, alienígenas, e
ainda assim caracterizados pelo côncavo e pelo convexo. Já em uma terceira
série, a poesia titular dos "Estático", "Encontro" e
"Liberto" é salientada e transcende pela documentação de uma
ascese formal sobre uma superfície granulada de apelo encantador, que sem
intermediação nos remete aos muros das nossas infâncias e adolescências.
Êxtase afetivo semelhante é alcançado nas rítmicas e melódicas composições
não tituladas, onde forma e cor se entrelaçam em harmonioso pas-de-deux e
se entregam ao livre curso, movimento e fluxo dos rios de emoções que nos
percorrem e que são povoados por planos, signos e aparições biomórficas.
Uma alegria para os olhos, essas suas pinturas são descomprometidas com
qualquer coisa, menos com a partitura e sua inerente musicalidade - sonho de
boa parcela dos pintores da infância da abstração. E
por falar em abstração, não esquecer que Marcel se torna quase um
bailarino etéreo, tanto na tela "Movimento", como no seriado das
revoluções azuis, vermelhas, amarelas - todas compostas de cores primárias,
puras, brilhantes e daí inapelavelmente sedutoras. Naquela e nestas, ao
mesmo tempo em que parece estar concluindo a formação propedêutica, o
artista se entrega a uma espécie de demonstração meta-pictórica,
ensinando a quem assim o desejar o como e o porquê da pintura abstrata que,
transcendendo e pulverizando toda a materialidade do mundo objetivo, alcança
esferas místicas e teleológicas. Montado nas tintas, Marcel volteia pelo
suporte, escreve e se inscreve nele, e deixa marcas e rastros no espaço,
sinais daquilo que chamamos de liberdade. Temos certeza de que esse rapaz,
dotado de espírito investigativo, irrequieto e sagaz, não nós deixará em
paz. Que assim seja, pra o nosso prazer. É preciso, entretanto, que se olhe
detida e repetidamente para as criações dele para lhes apreender o profundo
significado humanístico/artístico de que são animadas. Rio de Janeiro fevereiro 2004
Marcel
.Marcel Cruz
Fernandes da Conceição



Rua Leopoldino de Abreu nº125 -Penha - Antonina - PR - cep: 83370-000
fone: 41 432-3406
e-mail: marcel.cfc@bol.com.br